Pidezinhos

Alguém se admira que, num futuro próximo, até existam prémios para os melhores bufos de serviço?

18:19 Quarta-feira, 20 de Mai de 2009

Vamos esquecer por momentos que uma professora de História teve conversas ordinárias e arrogantes diante de criancinhas de uma escola de Espinho.

Concentremo-nos nas criancinhas.

Elas têm telemóvel antes de saber dizer “Sócrates”.

Dominam as tecnologias como nós, “os cotas”, nunca saberemos. Nem durando cem anos.

Tricotam sem pestanejar no telélé e até inventaram uma nova linguagem para se entenderem à velocidade do dedo.

Por vezes, trocam mensagens com conteúdos que muito ajudariam à educação sexual dos papás.

Na rua, no metro, no autocarro, estão absolutamente concentrados em si próprios. E virtualmente conectados com os amigos (o conceito de “amigo” também nos levaria longe, mas fiquemos por aqui…)

O Governo, para ajudar à catequização de alguma desta mocidade portuguesa, inventou o Magalhães. E promoveu-o de forma quase pornográfica.

Mensagens, mails e todo um pacote de instrumentos onde simulamos intimidades que não temos, trocaram a volta às relações. De pequenos e graúdos.

Fomos por aí adiante, cantando e rindo, sem pensar no que isso acarretou de exclusão, preconceito, intolerância, individualismo e seguidismo.

Pior: as criancinhas aprenderam depressa – e mais apetrechadas tecnologicamente – que a denúncia e a violação da intimidade, rendem. Nuns casos, até são elogiadas por isso. Com um jeitinho, até poderão faltar às aulas e reprovar nos exames consoante a produtividade da bufaria, quem sabe?

Nos últimos tempos, a moda pegou com os professores.

Não demorará muito a que estes pidezinhos de aviário, alimentados pela nossa inconsciência e irresponsabilidade, comecem a achar graça a algumas coisas que se passam lá em casa. Talvez as gravem. Ou filmem. E partilhem com os amigos.

Um dia talvez casem. Talvez tenham ciúmes. Talvez se divorciem. Talvez se apaixonem ou desapaixonem com facilidade. E sabe-se lá o que farão em nome da vigilância, da paz e da guerra dos afectos.

Um dia, terão um emprego.

E sabe-se lá o que farão para o manter. Ou em nome da ambição.

Se este Governo já pediu aos funcionários públicos para denunciarem a corrupção nos locais de trabalho, alguém se admira que, num futuro próximo, até existam prémios para os melhores bufos de serviço?

Há uns anos conheci uma pessoa que, entre o jornal onde trabalhava e um lugar na PIDE, acabaria por aceitar as funções no jornal. Ficava mais perto de casa, confessou ele, um dia.

Se pensarem que estamos muito longe disso, vá lá, pensem outra vez.

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