Catarse

Toda a alma é imortal, porque aquilo que se move a si mesmo é imortal.


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Ainda se não aperceberam? (Baptista Bastos)

A troika diz que apenas apresenta o esboço, e que as decisões são tomadas pelo Governo. Passos Coelho já nos havia advertido que fora para lá do que a troika exigira.
A troika diz que apenas apresenta o esboço, e que as decisões são tomadas pelo Governo. Passos Coelho já nos havia advertido que fora para lá do que a troika exigira. Fizera-o em nome da prevenção e a fim de tranquilizar os “mercados.” Os “mercados” têm servido para toda a espécie de embustes e de dissimulações, porque o pretendido é mascarar a crise alargada que o capitalismo atravessa. Bem gostaria de assistir a uma palestra ou ler um artigo de qualquer economista sério que nos esclarecesse da natureza exacta da crise. Dizem eles que a natureza exacta é sempre difícil de clarificar. E andamos nesta roda de balbúrdia atrás de balbúrdia, estando nós no meio dela.

A ideologia neoliberal tem-se expandido, com panegiristas não só entre os economistas “modernos”, para os quais a ética é, somente, uma experiência anacrónica, como em certos sectores jornalísticos. Não é inocente a citação constante do “Financial Times”, cuja influência, manifestamente, suplantou a do “The Wall Street Journal.” Numa época em que a incerteza é dominante, o conflito acerca das debilidades da democracia serve, objectivamente, os prosélitos do neoliberalismo. Não será significativo que, no caso português, poucas vezes a democracia seja objecto de estudo e de defesa, e que uma tendência para branqueamento do fascismo tenha, por exemplo, suscitado, na Imprensa, um sururu que está longe de ser uma polémica por notória deficiência intelectual de uma das partes? Fernando Rosas, com a inteligência que se lhe reconhece, e a rectidão cultural de que é tributário, fez editar, no “Público” de anteontem, um notável artigo, no qual põe as coisas em pratos limpos e chama aos animais os nomes que os animais merecem.

A ideologia neoliberal é uma aberração, que põe em questão os fundamentos da própria democracia, não para a melhorar, sim para a destruir. Em Portugal, a I República tem servido de pretexto para se elogiar o salazarismo, velada ou declaradamente. Pode um inimigo da República situar-se num plano de equilíbrio para analisar o assunto? E o louvor do salazarismo não será, ele também, um modo comparativo de se enxovalhar a democracia? As dificuldades extremas por que passamos, nesta fase histórica, não propiciam aos historiadores (com aspas e sem aspas), um discurso factual que ilumine e clarifique as origens dos nossos contratempos.
Os partidos “de poder” estão cada vez mais desacreditados, e os políticos que os representam perderam, completamente, a caução da nossa confiança.

Que fazer? Vejamos: na luta contra o fascismo, o antifascismo não foi, simplesmente, uma batalha ideológica. Foram criadas as condições para a criação de uma frente moral, que conglomerou a nata da cultura portuguesa, a diversidade das opiniões partidárias, e o desgosto acentuado das populações. Não estará na hora de se recuperar essa grande tradição?
O descontentamento generalizado das pessoas terá de levar àquilo que Mário Soares designou de “levantamento patriótico”, correspondente a essa frente moral que abalou os alicerces do salazarismo.

Estamos numa dilemática encruzilhada histórica. E não podemos, nem devemos permitir que esta monumental manobra ideológica, muito bem preparada e organizada, consiga alcançar as rupturas carismáticas, entre a legalidade constituída, de forma que obtenha resultados definitivos. Esta gente tenta fazer com que o abandono emocional se transforme em permanente estado de espírito. O sobressalto cívico de que precisamos, para sacudir esta fatal letargia, não tem sido acompanhado, essa é que é a verdade, pelos escritores, pelos jornalistas livres, pelos artistas. O ataque à RTP e à RDP é um dos aspectos da ofensiva que se estrutura.

Está em causa a nossa sobrevivência como nação, como povo, como entidade cultural.
Será que ainda se não aperceberam do que está em jogo, e das terríveis ameaças que sobre todos nós pairam?

b.bastos@netcabo.pt


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Equívocos com a ‘troika’ por BAPTISTA-BASTOS

O dr. Cavaco falou e disse. Disse que a troika falhara, no rude empreendimento da austeridade, origem de todos os nossos infortúnios. Os partidos de Esquerda tinham avisado dos perigos da proposta; porém, economistas de todo o quilate haviam-na aplaudido com fervor. O próprio dr. Cavaco era seu panegirista. Repetia, cheio de enlevo, que o Governo rumava cerro. E Passos Coelho, rubro de entusiasmo, decidiu ir mais além das exigências dos burocratas. Afinal, o plano de austeridade não cabia, por inteiro, àqueles senhores. O Governo procedera a uma espécie de incorporação dos seus próprios desígnios ideológicos e arrastara-nos para esta triste situação.

A combinação do embuste com a mais funesta manipulação dos factos tem criado novas situações de incerteza. A democracia de Pedro Passos Coelho provoca reservas e desconfianças surpreendentes. O desregulamento das regras e a liquidação dos princípios republicanos consentem todas as velhacarias. Inclusive a reprodução dos dispositivos da aldrabice. O descaramento com que o primeiro-ministro mente já deixou de provocar assombro: suscita repugnância. Para limitar as vias de acesso de outros ao poder, ele é capaz de nos dizer que tudo caminha pelo melhor. A impostura fere muitos milhares de portugueses, e indigna-os porque os humilha e castiga.

Nesta altura, o dr. Cavaco tinha a obrigação moral de apor um ponto de exclamação na mais escassa frase que pronunciasse. Atribuir à troika o grosso das culpas liberta Passos Coelho de qualquer responsabilidade. E coloca-se no supremo e imaculado papel de julgador. Além de idiota, a manobra entra nos domínios do irracional, porque já se sabe o que tem acontecido nestes domínios. Se a troika falhou, como pretende, docemente, o dr. Cavaco, que fizeram aqueles sábios que lhe seguiram o rasto e obedeceram às indicações? Quem falhou, afinal?

A charada é menos imbricada do que parece. Manifesta-se um fiasco generalizado em todas as actividades do Governo, cuja existência política já soçobrou, embora ele não reconheça nem admita. A troika, que falhou, lava as mãos das decisões eruptivas tomadas pelo Executivo; no entanto, ela age na sombra e no silêncio. E os mangas-de-alpaca que aí estão são, eles também, subalternos de uma ideologia na qual dominam os obscuros valores da finança.

A sociedade civil deixou, pura e simplesmente, de acreditar na escala local. E os esforços dos sindicatos, para inverter esta tendência, têm dado módicos resultados. Muitos de nós continuamos a acreditar que a cultura é prioritária. A cultura, entendida como actividade de relação, e como contrapoder, pode alterar, substancialmente, o sentido das coisas. Para isso, Portugal carecia de outro Presidente e de outro primeiro-ministro. E, acaso, de outra fibra.


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Os tristes dias destes dias – Baptista Bastos

“Que é o futuro?”, eis uma das perguntas. E a resposta surgiu como se fora o verso de um poema: “O futuro é uma coisa cá dentro que nos dá coragem.” Poucas vezes assisti a um acerto tão justo e, ainda por cima, em forma de metáfora. “É uma coisa cá dentro.” Não sabemos muito bem o que essa coisa é. Mas lá que ela existe, existe mesmo. Podemos também chamar-lhe coragem, energia, esperança e até fé. Quer dizer que não devemos desistir, que não devemos deixar cair os braços, que temos de encontrar alento onde o alento parece desaparecido.

Vejamos: que nos espera, a partir de domingo? Não sendo arauto de desgraças nem propagandista de receios maiores do que aqueles no interior dos quais vamos andando, tudo indica que a vida vai piorar para os portugueses. Não para todos: para a esmagadora maioria.

Seja quem for que ganhe as eleições, nem um nem outro dos presumíveis vencedores melhorará a triste e melancólica existência portuguesa. Além do que as guerras partidárias reiniciar-se-ão no minuto seguinte. É estranho verificar que tanto Sócrates como Passos Coelho não é bafejado pelo amor do próximo. Seja: pela estima dos seus “camaradas” e “companheiros.”

Passos, esse, então, reúne um montão de inimizades que o desfile de “apoiantes” de última hora corresponde a uma farsa pegada. Desde a inimitável Manuela Ferreira Leite, que proferiu uma declaração cheia de sicuta, além de adicionar aquela extraordinária frase de que nem na oposição queria Sócrates – até Santana, mais o sempre inteligente dr. Sarmento e o prof. Marcelo, a parada foi um monumento de hipocrisia.

Na hipótese de Passos Coelho vencer as eleições, a vida ser-lhe-á dura. Nem um, um sequer, daqueles que foram ao beija-mão, o estima, o admira, o estremece. Além do que o projecto de que conhecemos alguns extractos são de molde a deixar-nos seriamente assustados. Passos Coelho conseguiu o aparentemente impossível: levar o PSD mais para a direita. Mas também Sócrates fez o mesmo com o PS. As diferenças são, apenas de forma, e a forma é tosca.

As ideias do presidente do PSD são confusas e, por vezes, abstrusas, porém baseiam-se, firmemente, no breviário mais atroz do neoliberalismo. A tese “menos Estado, melhor Estado” é a bandeira de Passos, e tem sido condenada por todos os que pensam a sério. Arrastou o conceito de Europa unida para um lamaçal cujas consequências são imprevisíveis, mas sempre trágicas. Não é, apenas, a crise “sistémica” do capitalismo que originou a crise. É a arrogância de um programa de direita que não quer “aliviar o desfavorecimento e reduzir os extremos de riqueza e indigência” [Tony Judt].

José Sócrates diz que tentou forjar uma nova linguagem de justiça e de acção pública. Reconheçamos que obteve, inicialmente, alguns resultados amolgando alguns interesses corporativos. Mas Sócrates é amigo e defensor do “mercado”; nunca ambicionou modificar o “sistema” através de decisões progressistas e socializantes. Não esqueçamos de que foi aplaudido e incensado pelas faixas mais redutoras e reaccionárias da sociedade portuguesa. Desprovido do mais leve resquício de “socialismo”, suprimiu do discurso oficial do PS a palavra “trabalhadores”, “classe operária” e “luta de classes” no que foi severamente criticado, mas mais tarde, muito mais tarde, por Mário Soares. Este, agora, vendo o barco a afundar-se, veio em socorro de Sócrates, aparecendo num comício, um tanto surpreendentemente, tendo em conta os ásperos comentários que lhe tem dedicado, sobretudo nos artigos semanais que assina no “Diário de Notícias.”

O velho estadista sabe muito bem que, nestas eleições, os vencedores e os vencidos aproximam-se. E que as raivas, apesar de tudo, e os ressentimentos dissimulados, os pequemos ódios e a sede de vingança irão emergir. Se Passos Coelho se move em terreno armadilhado, José Sócrates irá tombar nas ciladas há muito montadas. Um e outro não criaram afectos, dentro e fora dos respectivos partidos. Um e outro pertencem a uma geração para a qual as convicções são o meio disfarçado de atingirem respectivos fins.

O mundo sem ideias acelerou. O mundo dos negócios, das trapaças, do espertismo pacóvio é um mundo triunfante. Temos de esperar mais duas ou três gerações para que outros momentos históricos surjam e se imponham. Até lá, temos de sobreviver com os Sócrates e com os Passos. O que, decididamente, não é razão para alegria.


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Esperar, quê, quem, e porquê? – Baptista Bastos

O que se sabe do projecto de Pedro Passos Coelho para Portugal é pouco, é vago, é impreciso.

“Que Portugal e espera em Portugal?”
Jorge de Sena

Ideologicamente, segundo o presidente do PSD, «acabará com o paradigma estatizante.» Significa, em palavras simples, que vai deixar de haver Estado na Educação, na Saúde, na Segurança Social. Cada qual entregue a si próprio. O breviário neoliberal encontra, neste conceito, a dureza do seu propósito: o individualismo mais feroz, a opor-se à relação tradicional dos laços sociais.

Ensinam-nos os mestres que menos Estado menos democracia. Uma nação transformada num imenso condomínio, com aplicados gestores e zelosos vigilantes, eis o que nos espera. As conquistas sociais obtidas na Europa no imediato pós-guerra parecem estar condenadas. Irremediavelmente? O que se passa, nos grandes países europeus, configura uma farsa pesada (a Itália de Berlusconi), um vaudeville grotesco (a França de Sarkozi) ou o arbítrio ignorante (a Alemanha de Merkel).

Tudo isto resulta de uma falta de visão de conjunto e da ausência de conhecimento da História, como há meses, lucidamente escreveu Antonio Tabucchi. A soma destas aventuras desditosas é o retrato das convulsões sociais, das múltiplas misérias e da carência de ética, que nega e condena todas as formas de sonho e de progresso como de desdenháveis utopias se tratasse.

Pedro Passos Coelho, independentemente da simpatia pessoal que possa suscitar, é outro daqueles políticos do «sigamos o cherne» [Alexandre O'Neill], destinados ao desastre por inexistência de projecto nacional. A internacional neoliberal é que manda, dirige, pune e estimula. Não será preciso grande esforço intelectual para que vejamos o quadro. E o quadro é sinistro.

A União Europeia, não o esqueçamos, é dominada pelo Partido Popular Europeu, que reúne um conjunto de partidos de Direita e de Extrema-direita. Deles emanam as orientações repressivas a que temos vindo a ser submetidos. E o PSD pertence a essa agremiação política, configurada numa poderosa expressão de poder. A Europa não responde drasticamente, porque o não deseja, porque feria os seus interesses, ao manobrismo financeiros dos grandes grupos económicos. A imoralidade atinge índices nunca vistos.

Ignoro o modo e o estilo que Passos Coelho adoptará, dando o caso de ganhar as próximas legislativas. Mas não ignoro nem o modo nem o estilo de uma Esquerda incapaz de dar resposta à maior ofensiva de domínio unilateral de que há memória. Adicione-se-lhe a traição dos partidos socialistas, de que o nosso é penoso exemplo.

Sócrates ganha as eleições no seu partido com uma expressão tão impressionante que faz lembrar os índices obtidos pelo falecido Kim Il Sung, glorioso timoneiro. Lá dentro é o bem-amado; no exterior, é uma das criaturas políticas mais odiadas desde tempos imemoriais. Chegou-se ao ponto de fogosos teóricos (e não só de Direita) admitirem, como salvação da pátria, uma coligação PSD-PS-CDS, apenas com um ligeiro pormenor: sem a presença do engenheiro. As coisas estão na mesma porque as coisas são o que são. «O país é pequeno, e as pessoas que lá vivem maiores não são», disse Garrett, e acertou no alvo.

Esperemos. Mas esperemos, quê, quem e porquê?

Isto não vai lá com coligações que se entendem. Vai, isso sim, com políticas que vaticinem o futuro, com políticos que possuam o estofo de estadistas e com uma alteração de mentalidades tão grande que seria precisa uma barrela de dimensões inauditas.


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Dois discursos: a grandeza de quem sabe; e a soberba de quem é apenas Presidente – Baptista Bastos

O discurso do Presidente da República não teve importância nenhuma. Nem novidades nem brilho. O costume. O dr. Cavaco repetiu o que já tem dito, e as advertências que faz são as mesmas que outros economistas e preopinantes têm feito. Gostava, de uma vez por todas, esclarecer que de nada de pessoal tenho contra o senhor. Mas ele não dá azo a que mude de opinião. Quer que todos pensem como ele. E, como se sabe, é um homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas [Cavaco dixit].

O discurso reflecte essa arrogância, essa soberba e essa notável falta de humildade e de senso. Largou umas zurzidelas menores ao Governo e a Sócrates, num português medíocre, muito apreciado pelos seus prosélitos. Dizem que é bom economista. Parece que os bons economistas não estão nada de acordo. Usa frases insípidas e ríspidas, mas não imparciais, independentes ou neutrais. Um Presidente nunca dispõe dessas virtudes. Um Presidente, neste caso o dr. Cavaco, reserva-se o direito de omitir, ser pouco claro, e de ter com a verdade relações nem sempre translúcidas.

O texto é obscuro, sinuoso, baço, desmotivador porque o conteúdo é mais tenebroso do que as críticas de Medina Carreira. Este, pelo menos sustentava as suas opiniões; além de falar um idioma de lei. Digam-me, em consciência e com toda a franqueza: que português é atraído por aquelas frases e corre, desabrido e ofegante, para salvar a pátria? Nem um. A não ser, acaso, o dr. Miguel Macedo, o único que viu um escondido fulgor, um resplandecente apelo à acção, uma cintilante chamamento no cabisbaixo documento.

Paulo Portas, esse, foi a desilusão estatelada. Interrogado por febris jornalistas, declamou, sério e assertivo: “Um discurso duro e verdadeiro.” Tenho saudades do tempo em que Paulo Portas, n’ “O Independente”, reduzia Cavaco e sua corte a subnitrato. A prosa do então jornalista, era do melhor que a Imprensa produzia. Aliás, era o que de mais vivo, mais combativo e jovem o semanário publicava. Agora, parece um senhor que, para abater as banhas, tem de ir frequentemente ao ginásio.

E as decorrências do discurso foram penosas. Os habituais comentadores do óbvio procederam, obviamente, ao que deles se esperava. Não percebem que este temor reverencial pelos vencedores e pelos candidatos a tal acabará por engoli-los. A mediocridade puxa à mediocridade, e como a mediocridade já por aí assentou fundos arraiais, a coisa está cada vez mais perigosa.


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Contra a violência do Estado – BAPTISTA BASTOS

O PEC é uma fatwa com que o Governo decidiu punir os mais desfavorecidos. E é uma outra expressão da violência que se espalha pelo nosso país. Estamos a pagar pelas culpas de outros, e esses outros, que passaram por sucessivos governos, são premiados pela incompetência. Há dias, Bagão Félix bradava, numa televisão “E a Igreja?”, expressando, assim, a indignação que lhe provocavam os grandes silêncios e as geladas indiferenças, ante a decomposição dos laços sociais. Perante a instância de violência de que o Estado se tornou arauto e protagonista, nada mais nos resta do que, após o inócuo direito à indignação, passarmos ao dever de desobediência.

O Governo, este Governo, não se limita a apresentar uma nova variante de violência essencial, de que o PEC é horrorosa expressão, como tripudia sobre o próprio conceito de democracia. Nada valida esta prepotência anti-social, que José Sócrates pensa legitimada pelo poder (relativo, ou mesmo que fosse absoluto) atribuído pelo voto. Os portugueses mais desprotegidos são afectados por uma imposição brutal (violenta) de legalidade duvidosa, cujas consequências, como resposta às iniquidades, podem ocasionar uma maior violência pública.

As surdas vozes protestatárias que começaram a fazer-se ouvir, entre alguns militantes do PS reflectem, elas também, pela surdina e pelo tom oco, outro género de violência: a do medo. A barreira da linguagem demonstra a rigidez da obediência cega ao chefe, entre os dirigentes, os apoiantes e os partidários do PS. A ausência de adversário e a irracionalidade das jogadas no Parlamento, as indecorosas “abstenções” feitas em nome da “estabilidade”, e da “responsabilidade de Estado”, constituem uma espécie de elemento patológico que mancha a grandeza desejável da democracia. Não receemos as palavras: Sócrates não só tem debilitado o PS como é responsável pelas mais rudes amolgadelas na democracia. Tudo o que advirá resulta desta política de soma nula.

A história não se fica, certamente, por aqui: quantas vezes não aconteceu já, que, quando tudo parece inabalável, o poder de novas formulações consegue remover objectivos políticos ilícitos porque absurdos e contrários às aspirações da comunidade? Porém, há uma ideia de nação que deixou, vagarosamente, de o ser: exclusão, egoísmo, ganância, desemprego, corrupção, precariedade, indefinição de identidade.

A violência do PEC mais não traduz do que a violência da nossa sociedade, cujas prostrações assumem a feição de um sintoma neurótico. Estamos doentes de resignação e de astenia moral. Parafraseando Alexandre Herculano: “Isto dá vontade de chorar.”


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Baptista Bastos- Resistir é uma forma de combater

Não há motivação, na sociedade portuguesa, que consiga alterar a inércia em que nos encontramos. Vem aí o PEC e o pouco que do documento sabemos deixa-nos desassossegados, mais desassossegados do que até aqui nos encontrávamos. Sócrates aparece, fala dois minutos, vai embora e lega aos outros a maçada de nos esclarecer. Nenhum dos membros do Governo, de plantão para a funçanata, esclareceu coisa alguma. Fomos sabendo do infortúnio que nos aguarda através dos especialistas em economia. E as informações, repito, são de molde a deixar-nos espavoridos.

O PEC é uma pouca-vergonha. Um trapo cheio de remendos. Uma negaça mal amanhada, com uns truques pelo meio, como aquele de se proceder a outra fiscalidade a quem aufira, por ano, mais de 150 mil euros. Somos nós quem vai pagar a crise. Nós, o resto, numeroso, dos portugueses para os quais nada se oferece e tudo se tira.

Toda a nossa vida tem sido um processo de demolição empreendido por este Governo (mas também por outros) que nos fez entrar na mais dolorosa letargia, porque nada nos acena a mais escassa e módica esperança. Sócrates serve-se de nós, com um impudor que raia a esquizofrenia. Qual o conceito que possui de poder? Democrático não é, certamente.

Este novo golpe do PEC nem sequer lhe mereceu o cuidado de ser explícito, claro, pausado e mobilizador, tendo em conta a brutalidade das propostas. Porém, já nos habituámos a estas manifestações de sobranceria. Os “intocáveis” continuam os mesmos. Os vencimentos sumptuosos talvez apenas sejam atingidos por pequenas amolgadelas. Nós é que vamos pagar tudo. E não somos culpados de nada. Os responsáveis do descalabro a que chegámos ficarão alegremente impunes, nem sequer o ferrete da indignidade nacional (que, em França, depois da guerra, se converteu em figura jurídica) lhes será aplicado. Esta gente faz o que quer, não presta contas (a penalização dos votos é uma rábula consecutiva) e passa à frente.

Este ciclo político que está moribundo terá continuidade no que se lhe segue. As indicações que temos dizem–nos que os candidatos à chefia do PSD, e um deles putativo candidato a primeiro-ministro, não harmonizam nenhuma ideia, diferente das que até agora têm articulado o nosso pobre destino. É tudo mais do mesmo: privatizações, entregar ao “mercado” a solução dos problemas, mesmo quando o “mercado” é o que é e o que nós sabemos, impostos directos ou indirectos – enfim, todo o breviário com que a globalização da economia, cega e surda, sobrecarregou as nossas já atávicas desgraças.

O Governo Sócrates não presta para nada. Está visto e provado. Mas as ameaças que se seguem fazem temer o pior. Os Governos, perante a abertura dos mercados, tal como as redes de comércio, e as estratégias planetárias das grandes empresas, encontram-se fragilizadíssimos. Todavia foi a inacção da política que permitiu a sobreposição da economia. É preciso entendermos que a nação deixou de ser o quadro simbólico e territorial como anteriormente se conhecia. Não mandamos em nada do que julgávamos nosso. Porque também é preciso compreender que a zona a que chamávamos “pátria” não nos pertencia: era propriedade dos grandes cavalheiros da indústria, dos latifundiários e de um ou dois grupos financeiros. Quando apelam à nossa colaboração (nos sacrifícios económicos como nas guerras e em outras manifestações de falsa posse) apelam que façamos a defesa daquilo que nos não pertence.

O que, neste momento, é de nós exigido, melhor: que nos é rudemente imposto por um Governo, dito, mentirosamente, de “socialista”, faz parte do discurso do poder quando o poder se sente cercado. Deixámos, há muitos anos, de proceder de fontes directamente culturais e de valores que haviam instituído uma certa maneira de viver. Este Governo e os que o antecederam (sublinhando a calamitosa herança de Durão Barroso e o intermezzo cómico de Santana Lopes) depredaram o que ainda existia (a década cavaquista foi o prelúdio à fatalidade) de sentimento de comunidade, de laços afectivos de solidariedade e de “presença.” Todos os políticos nomeados estavam desprovidos de sentido cultural e, em muitos casos, manifestavam liminar ignorância. Recordo-me de, certa vez, conversando, com Eduardo Prado Coelho, sobre Durão Barroso, com quem ele simpatizava, o meu amigo, como que a defendê-lo, disse: “Mas olha: é leitor de Maria Gabriela Llansol.” Fiquei calado de espanto.

Estas minhas inquietações e, amiudadas vezes, a veemência com que defendo ideias, não é de agora. Vem de muito longe. Desse imperativo que sempre me impeliu a criticar posições de recuo e de fechamento, sobretudo em relação àqueles, politicamente com responsabilidades histórica, que traíram os testamentos e espezinharam sonhos e esperanças.

No entanto, vale a pena acreditar porque vale a pena resistir: resistir é uma forma de combater.

b.bastos@netcabo.pt


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Liberdade, eis a questão

por BAPTISTA-BASTOS

A questão é esta: há liberdade de imprensa em Portugal? É ociosa, a pergunta, para quem, como eu, vem do tempo em que se escrevia baixinho, tão baixinho que perdêramos muitas das palavras, por mudez e falta de uso. Já me não surpreende a desvergonha de alguns daqueles que têm desfilado nas televisões a proclamar que vivemos numa asfixia. Mas indigna-me o silêncio calculado dos que se não erguem a protestar contra a ambiguidade do assunto.

O alvo, naturalmente, é e tem sido José Sócrates. O homem mente compulsivamente, denegou os testamentos da esquerda, bandeou-se com a direita procedendo às mais graves traições, não possui bússola ideológica, ignora o que são convicções, é destituído de compleição de estadista e cultiva uma mediocridade feliz dissimulada numa incontinência retórica que, amiúde, o emparelha com um vendedor de feira.

Depois disto e com o desenrolar de acontecimentos que o perseguem, porque por ele próprio provocados -, chega-se a este melancólico resultado: José Sócrates é tolo, ingénuo ou extremamente sinistro. As escutas esclarecem não só os contornos desses defeitos como no-lo dizem da desastrosa escolha das suas companhias e das relações perigosas que tem sustentado. Enfim: Sócrates não tem amigos; tem instantes de amizade.

Os documentos agora revelados e alguns esparsos factos ocorridos alinham-se como consequências uns dos outros, e apontam para o primeiro-ministro, sublinhando os defeitos por mim acima indicados com amena benevolência. Se havia um plano tenebroso para controlar a comunicação social; se a censura está instalada no cerne da sociedade portuguesa, é bom que se crie a tal Comissão Parlamentar de Inquérito, a fim de se averiguar a extensão e a natureza do crime – como será urgente que os jornalistas vítimas do fluxo censório venham à praça queixar-se das suas desventuras.

Há algo de torpe neste alvoroço. Um ex-ministro, agora protestador grave e atroz, foi, na sombria década cavaquista, controleiro da RTP. E um dos agora acusadores da falta de liberdade era o zeloso varejeiro do noticiário. Não cauciono, de forma alguma, tentativas de domínio da imprensa pelo poder político. Mas não colaboro neste imbróglio, que tem estimulado a perda do sentido das coisas e a adulteração da verdade histórica. A reabilitação de falsos fantasmas apenas serve para se ocultar a medonha dimensão do que ocorreu na década de 80. Os saneamentos, a extinção de títulos, a substituição de direcções de jornais e a remoção de jornalistas incómodos por comissários flutuantes eram o pão nosso de cada dia. Já se esqueceram?


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De novo os velhos ratos

Baptista Bastos
De novo os velhos ratos
b.bastos@netcabo.pt

Continuo a frequentar, com mão diurna e mão nocturna, muitos daqueles poetas que, sem serem a minha escada de Jacob para atingir o céu, têm sido os inseparáveis companheiros da minha jornada para compreender os homens na terra. Muitos deles conheci…

Continuo a frequentar, com mão diurna e mão nocturna, muitos daqueles poetas que, sem serem a minha escada de Jacob para atingir o céu, têm sido os inseparáveis companheiros da minha jornada para compreender os homens na terra. Muitos deles conheci pessoalmente, de muitos deles fui amigo pessoal, camarada de armas e ouvinte curioso e atento. Não merece a pena nomeá-los; são numerosos e talvez parecesse presunção dizer que com eles comparti tudo o que aconteceu na minha vida. As rivalidades entre eles sempre as coloquei à margem. Deram e continuam a dar a imagem do português médio e arteiro, desolado e trágico, cheio de sorriso e cheio de melancolia.

Não deixo de sorrir quando ouço a vã convocação dos seus nomes, feita por políticos notoriamente distantes do que chamam. Aposto que o dr. Cavaco nunca se deteve numa página de Torga e muito menos de Guerra Junqueiro. Citou-os, no entanto, na abertura das comemorações do centenário da República, com a displicência calma de quem os usa para suportar o que diz. Claro que foi um qualquer assessor do dr. Cavaco o autor do texto. Claro. Mas não deixa de causar uma estranha sensação de mal-estar a designação daqueles que nada têm a ver com estes. Pura girândola.

Há dias, José Sócrates, que, penso, também não será muito dado a estas coisas da literatura, convidou para um almoço (foi um almoço?, não percebi bem) jovens criadores portugueses. Trocou o nome a um deles, o que não tem muita importância, a não ser que se deseje atribuir importância a um acontecimento medíocre. Há anos, António Guterres também chamou a São Bento um sortido grupo de “intelectuais.” O objectivo, disse ele, era o de conviver com os homens e as mulheres que “produziam cultura.” Confesso que a expressão me incomodou. Saí, acaso espavorido, com Álvaro Guerra, e fomos beber uns uísques, para desanuviar. Não gosto nada destas reuniões. Nada dizem e a nada conduzem, a não ser a circunstância de os convidados sujeitarem-se a ser os “brinquinhos” da cultura com que os políticos se ataviam. Convites para isto e para aquilo recebo-os com regularidade. Em grupo, rejeito-os. Se for coisa de conversa, de troca de ideias, tudo bem. E tenho obtido conhecimentos e informações importantes, confissões e inconfidências que permanecem sigilosos.

Há dias, fui à estante e tirei um dos mais belos livros de poesia do nosso tempo: “O Nome das Coisas”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, editado em 1977, pela Moraes, no célebre Círculo de Poesia. Gostaria de partilhar com os meus Dilectos a beleza de um texto cuja grandeza jamais é ofuscada pela evidente intervenção que contém. E lá está o sonho permanente de integridade, o gosto inextinguível pela nitidez das coisas, pela eternidade inteira da liberdade.

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome de terrestre.

O poema chama-se A Forma Justa e vai por aí fora. Este pequeno livro da grande poetisa está repleto de ensinamentos a que a ordem do tempo atribuiu valor incalculável. A visão do mundo e a noção da relatividade das coisas encontram-se como um vaticínio (Nestes últimos tempos é certo a Esquerda muita vez / desfigurou as linhas do seu rosto / mas que diremos da meticulosa eficaz expedita / degradação da vida que a Direita pratica?).

Esta mundivivência reverte-nos para a situação actual. Sophia previu, como ninguém, a degenerescência de uma Revolução que recusara a pedagogia em favor da tomada do poder. As críticas que faz aos socialistas são premonitórias. Ela desejava uma sociedade ideal, fraterna e solidária (estas palavras são, hoje, apontadas como anacronismos), onde as possibilidades de tudo estivessem ao alcance de todos.

Assistimos a este desfile de contradições, de mentiras, de vacuidades, a esta petrificação do poder pelo poder, à ascensão da mais parda mediocridade que Portugal já gerou – e desalentamo-nos. Há dias, no programa Prós e Contras, de Fátima Campos Ferreira, RTP-1, ouvimos tamanha dose de pesares que fomos, esbaforidamente, tomar uns Xanaxes, a fim de aliviar, um pouco, o peso do nosso desânimo.

Nada nos impele à esperança; ninguém, daqueles que valem a pena ser escutados, nos induz que as melhorias estão próximas. Pelo contrário: tudo vai piorar, os portugueses vão viver num inferno de dor e assombro, o desemprego vai aumentar dramaticamente, a emigração voltou aos valores da década de 60, quando os homens fugiam “a salto”, na demanda de um futuro mais justo; quando a nossa melhor juventude abalava da guerra colonial, do salazarismo, da espessa falta de ar e de sonho. Por esses anos, fui ver, em Paris, os bidonvilles, os bairros-da-lata imundos onde sobreviviam os nossos compatriotas. A responsabilidade dessa miséria inominável nunca foi rigorosamente atribuída. Mas sabe-se de quem era. Hoje, a erosão da mocidade mais culta e intelectualmente apetrechada, a angústia de não saber que futuro lhe está reservado faz-nos, de novo, lembrar Sophia:

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos.
Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado.
Novos ratos mostram a avidez antiga.

b.bastos@netcabo.pt


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As múltiplas incertezas

Baptista Bastos
b.bastos@netcabo.pt

“Não vou deixar o País sem Orçamento!” Esta proclamação, feita na primeira pessoa e desprovida de o mais escasso pingo de vergonha, pertence, claro!, ao dr. Paulo Portas. Independentemente de ignorar os seus colaboradores imediatos, a…

“Não vou deixar o País sem Orçamento!” Esta proclamação, feita na primeira pessoa e desprovida de o mais escasso pingo de vergonha, pertence, claro!, ao dr. Paulo Portas. Independentemente de ignorar os seus colaboradores imediatos, a majestática afirmação pretende lançar um véu de poeira na verdade dos factos. Foi o PSD, e não o CDS, neste caso um mero sobressalente, que permitiu, com a abstenção, que o Orçamento passasse no Parlamento.

Portas deseja, com modos e declarações esquizofrénicos, rasteirar o PSD, numa altura em que as fragilidades, derivas e confusões deste partido permitem todas as jogadas. Portas é vaidoso, intempestivo e imprevisível, mas a tolice não está inscrita no seu ADN. Sabe, muitíssimo bem, que o inusitado crescimento do seu partido constitui um epifenómeno, insuflado pela decadência do PSD. Em termos sociológicos, o PSD é uma organização política mais poderosa do que o CDS. Tem sofrido o desgaste da impreparação dos seus dirigentes, dos malabarismos das facções e da emergência de interesses mais ou menos camuflados. Não só a inconcebível estratégia da dr.ª Manuela Ferreira Leite atirou o partido para os fojos: as anteriores direcções de Durão Barroso e de Santana Lopes, à parte o ridículo que as adornou, acumulou no imaginário da Direita a descrença e o desamparo.

O CDS de Paulo Portas nasceu do conceito de que poderia ser o substituto de um partido notoriamente dependente do ideário do dirigente de plantão. Uma vezes era uma coisa; outras vezes não se sabia muito bem o que era e o que queria. Social-democrata é que nunca foi. O CDS actual é a imagem devolvida de Paulo Portas. Até a sigla se confunde com o acrónimo. Enquanto o PSD não decifrar os sinais do tempo, e não encarar a questão da ideologia, perderá o tempo – porque o modo já o abandonou há muito.

Pessoalmente, repugna-me a “presença” política de Portas. Ele é o “momento”, a “improvisação”, e, amiudadas vezes, o chamamento do pior que poderá haver: nacionalismo exacerbado, xenofobia, racismo dissimulado, recurso às formas mais elementares de revanchismo, desprezo absoluto pelas mais ténues manifestações de progressismo. Portas não possui uma ideia de seu. Socorre-se das mais anacrónicas sinopses que edificaram o pensamento de Charles Maurras, e tem-se movido no terreno deixado vazio pela Esquerda e por certas franjas da Direita. O CDS de Paulo Portas deixará de existir, ou ficará reduzido às suas exactas dimensões sociológicas, quando o PSD conseguir (conseguirá?) recuperar o seu ímpeto.

Independentemente da grande rábula encenada para as televisões, neste caso do Orçamento a força do CDS é irrelevante. Mas a verdade é que, fazendo uma “abstenção construtiva” (que raio será este conceito?), colocou-se junto do PSD (do que resta do PSD) e integrou o PS numa frente de Direita. Porque, não o esqueçamos, a vitória da Direita, na admissão do Orçamento, é mais do que evidente. Foi o PS quem escolheu os parceiros. E, ao ignorar a Esquerda, tornou-se refém do PSD e do CDS.

A quem serve este Orçamento? Por aquilo que vamos sabendo, trata-se de um documento que, mais tarde ou mais cedo ajudará o PS no acelerar do suicídio, para o qual caminha, com desenvolta leviandade. A Direita, está bem de ver, não cedeu, nem capitulou. Trabalhou para restabelecer a escala antiga dos seus interesses. Creio que, quando o pó assentar e as coisas públicas se tornarem claras, verificar-se-á que o PS cumpriu a sua indesmentível vocação histórica: mas uma vez traiu os anseios da sua base social de apoio. E se a Direita, recomposta da sua eliminação momentânea, tiver líderes e doutrina que correspondam às suas raízes e saiba adaptar-se às imposições do tempo, o Partido Socialista será removido do poder, e pelo limbo permanecerá.

José Sócrates teve a possibilidade de colaborar numa transformação significativa da sociedade portuguesa. Desperdiçou-a. As “reformas” apregoadas foram deformações aberrantes. Uma poderosa máquina de manipulação foi posta ao serviço de um projecto que de “socialista” nada continha. Estávamos perante a trágica alternativa de tolerar Sócrates ou admitir Ferreira Leite. A segunda etapa deste PS emergiu dessa contradição de que a História, por vezes, se serve para nos infernizar. Assim estamos. E assim vamos, todos os dias desembocando em múltiplas incertezas.

b.bastos@netcabo.pt


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O doloroso ‘intermezzo’ : BAPTISTA-BASTOS

Matamos duas e três vezes os nossos poetas. Os políticos, esses, servem-se deles para adiantar conhecimentos literários de duvidosa autenticidade. Torga, Sena, O’Neill foram os mais citados por presidentes da II República. Mário Soares conheceu quase todos. De muitos, foi amigo. E ouviu de Torga, de Sena e de O’Neill mordazes palavras recriminatórias. O’Neill timbrou um estribilho célebre: “Ele não merece, mas vota no PS.”

Era gente de outra estaleca, que se deixava levar pelo poder da ironia e do sarcasmo. Procedia de uma geração sem equívocos e sem ambições de soldo ou de glória. O sonho de liberdade alimentou a vida e iluminou a obra dessa gente. Soares sentou à mesa do Palácio de Belém o que de melhor havia na literatura portuguesa e europeia. Eanes, com a decência comum ao cavalheiro da aristocracia de província, nunca alardeou as suas amizades intelectuais, mas tinha-as, honrava-as e respeitava as plurais tendências de cada qual. Com discrição e decoro chegou a ajudar alguns e a tentar corrigir injustiças, como no caso de Natália Correia.

Também tivemos sorte, nesta matéria, com Jorge Sampaio. Acaso foi timorato em excesso, quando presidente. Porém, seria incapaz de confundir Thomas Mann com Thomas More. Não era adepto da superstição do consumo, não era frequentado pela ironia, mas emocionava-se com a condição humana.

Cavaco constitui um intermezzo por vezes doloroso, amiudadamente cómico, e sempre torturante: não é homem animado pelas apoquentações do espírito. E se nunca está à vontade num ajuntamento, quase entra em pânico num grupo de pessoas medianamente letradas.

A Presidência da República, com excepção do interregno salazarista, possui a tradição de ser ocupada por homens dados à cultura e à curiosidade literária. Estes atributos não fazem, necessariamente, um bom executante do cargo, mas ajudam muitíssimo. Um presidente de recursos culturais escassos, medíocres e insistentes, não só banaliza a função como causa a zombaria. Sabe-se: Cavaco chegou aos altos cumes do Estado por uma simbiose milagrosa, casual e disparatada que a História, por vezes, concebe e concede. Não foi um grande primeiro-ministro, pelo contrário; não é um Presidente marcante pela positiva.

Ora, perante estas amargas evidências, não surpreende que Manuel Alegre se “disponibilize” para “entrar na luta.” Apesar dos anticorpos que criou, inclusive em certos yes men do seu partido, ele possui uma vida numerosa, intensa e arriscada, que cauciona o humanismo de voz alta, próprio de quem não confunde razões de coração com as imposições da tabuada.


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Democracia de superfície

por BAPTISTA-BASTOS

Mário Soares escreveu que temos de combater o “derrotismo”. Temos. Para esse combate essencial e ingénito precisamos de motivo e de motivação. Ora, como o meu amigo Mário Soares sabe, oh!, se sabe!, domesticaram a rebeldia das nossas causas, em nome da “normalização” democrática, que não chega a ser uma farsa genial de “Governo do povo pelo povo” porque se converteu num regime declaradamente causador das maiores injustiças e das mais criminosas iniquidades.

Pertenço a uma geração animada pela “teimosia da esperança” [Bocage] e pelo obstinado sentimento de que as coisas tinham, necessariamente, de mudar. Para isso, porém, era necessário ajudar a História a abandonar o seu moroso passeio pelo tempo, e a abrir os olhos à sua cegueira. “Nunca, na crónica das tiranias, houve um povo que se batesse tão bravamente pela liberdade, como o português”, escreveu o grande jornalista republicano Carlos Ferrão. São milhares e milhares de compatriotas nossos que passaram pelas masmorras do fascismo, ou foram assassinados, ou homiziados, todos eles torturados de modo atroz. A sintaxe mágica da liberdade reuniu intelectuais, operários, camponeses, comunistas, católicos, anarquistas, monárquicos, num movimento inolvidável e historicamente ímpar. O património da Resistência não é um imenso e solitário poema: é a épica de um tempo que associou o impulso de combater o salazarismo ao projecto de se construir o futuro.

Que futuro? Distanciados do confronto de ideias que percorria a Europa e o mundo, apenas entrevíamos o carácter imprescindível da liberdade. O regime novo determinaria um novo sistema, pensávamos, com a ingénua ignorância de quem se quer ver livre de algo incómodo. “Venha a maré-cheia / de uma ideia / para nos empurrar”, cantava o Zeca Afonso. Estes três versos ilustram, como poucos, as nossas perplexidades. Não sabíamos muito bem o que desejávamos como sociedade, como povo, como sinal de uma política. Mas “aquilo” não queríamos. O motivo e a motivação explicativos de um particular humanismo. Eis porque o antifascismo começa por ser um movimento moral, antes mesmo de ser uma corrente ideológica. A frase de Carlos Ferrão nasce de um radical descontentamento popular, e cria um impulso generalizado que se renova com as épocas. Exceptuando esta, que nos impele ao desespero, à descrença mais sombria, ao horizonte cerrado em que nada se vislumbra de luminoso. Instalou-se em nós um cansaço indolente, uma indiferença infame. Esperar. Esperar, quê? Estamos submersos pelo desdém petulante de quem nos obrigou a aceitar uma sociedade de que não somos verdadeiramente responsáveis.


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Os discursos do vazio

por BAPTISTA-BASTOS

O eng.º Sócrates e o dr. Cavaco falaram à pátria. A pátria ficou estarrecida. O primeiro teceu um plissado de banalidades, e procurou aliviar as nossas angústias inesgotáveis dizendo que as coisas corriam o melhor possível. O segundo reduziu a subnitrato o júbilo do orador. A situação é «catastrófica» e o horizonte é horroroso. O pior do pensamento do dr. Cavaco, se é que o tem ou alguma vez o teve, é que se ordena na desordem. Não há ponta de originalidade nem pingo de lirismo. Estamos danificados por dentro e por fora: falta-nos competitividade, andamos cheios de lazeira, devemos dinheiro a toda a gente, possuímos uma alma adormecida, não somos coerentes nem fluentes, o sol apagou-se dentro de nós. Enfim, segundo o dr. Cavaco, somos uns grandes desgraçados. Nem uma palavra, uma escassa, módica e tímida palavra sobre cultura, ciência, arte.

Reconheçamos que ele nunca foi consumidor do pensamento de outros. Kant ensinava que a razão partia das coisas simples e Nietzsche que as ideias nasciam do corpo. Ambos explicavam, afinal, que o difícil seria evitá-las. O dr. Cavaco conseguiu-o. É um homem feliz.

O alvoroço com que a vulgaridade das frases foi acolhida e comentada por políticos e por «comentadores» fornece-nos a exacta dimensão da mediocridade em que sobrenadamos.

Tanto o eng.º Sócrates como o dr. Cavaco são criaturas deterioradas pela rotina de quem se plagia a si próprio. Dizem, há anos, as mesmas coisas. O meu amigo Vítor Ramalho declarou, ao Sol, que eles são almas gémeas. Como não percebi a entoação ignoro se o retrato possui algo de crepuscular: lá que não é bom, não é. Nenhum deles alimentou qualquer projecto para Portugal. A ausência de ideias e a inexistência de ideologia marcaram a presença destes dois homens na política. O primeiro recebeu dinheiro a rodos, não soube distribui-lo com equanimidade e génio, e apagou a claridade espantosa do nosso sonho colectivo, reintroduzindo na sociedade portuguesa a rigidez do espeque e a gelidez do chefe. Uma das grandes mistificações da nossa história recente é aquela que induziu a tese de estarmos em presença de um «grande homem.»

José Sócrates seguiu-lhe a peugada. Obedeceu à ordem do possibilismo, às indicações económicas dominantes, e à insensata tentação dos políticos do nosso tempo: o compromisso com eles próprios. Um caminho que levou, por exemplo, o viçoso Tony Blair, de tropeção em tropeção, até ao estatelamento final. Blair é uma das inextinguíveis vergonhas da nossa época, e a «terceira via» uma fraude não só infantil porque assustadoramente perigosa.

Chegados aos discursos do fim do ano, independentemente das objecções gramaticais ou sintácticas que se lhes faça, o pior é a substância do que dizem: nada de nada.

In D.N.


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Nunca fomos outra coisa senão isto…- Baptista Bastos

b.bastos@netcabo.pt

Pouco podemos esperar desta democracia. Chamam-lhe “representativa” mas, na verdade, pouco ou nada nos representa. Vivemos não numa comédia de enganos, mas numa tragédia de mentiras. Os conceitos morais, os princípios éticos foram pulverizados. Ainda agora, Fernando Lima, que fora destituído das funções de assessor para a comunicação social do Presidente da República, foi por este promovido. Recordemos que Lima, envolvido no caso das escutas em Belém, portou-se como o cargo exigia: defendeu o amo e senhor, notoriamente responsável pelo imbróglio. Fernando Lima é um jornalista abaixo do medíocre, cuja carreira é embaraçosamente surpreendente. Não possui méritos assinaláveis que apoiem ou justifiquem os lugares de chefia e de directoria por ele desempenhados. Sobre o caso já escrevi, no JN, dois artigos. Não desejo alongar-me mais: o assunto fede. Mas que esse fedor exala algo de nauseabundo e de pérfido, lá isso…

Sobrenadamos neste oceano glauco de pagamento de favores, de tranquibérnias de todo o jeito e feitio, de promoção de “yes men”, de percursos sombrios, de corrupção vulgarizada, de actividades pouco claras. Um fartote! Podemos afirmar que vivemos em democracia? Não.

Ainda há dias, no programa Prós e Contras, RTP1, de Fátima Campos Ferreira, ficámos a saber, uma vez mais, como os lídimos representantes da Justiça não se entendem. Não é novidade para ninguém que a Justiça, em Portugal, é inexistente. E que, como muita gente responsável declara, beneficia quem tem dinheiro e desmerece de quem o não tem. O bastonário da Ordem dos Advogados, o dr. Marinho e Pinto, tem desmontado, com invulgar coragem e rara audácia, os meandros em que a instituição se tem enredado. Não se esqueceu de dizer que nada aconteceu aos juízes que ofendiam a moral e a decência, nos amargamente famosos Tribunais Plenários, antes do 25 de Abril. Depois, muitos foram recolocados, com alegre leviandade.

Um país sem memória, ou que não cultiva a recordação das coisas, está irremediavelmente condenado. E, a propósito, não esquecer, também, o facto de o dr. Cavaco ter negado uma pensão à viúva de Salgueiro Maia, e não as haver recusado a ex-agentes da PIDE. Foi, aliás, durante a década cavaquista que a amnésia histórica se alargou, como ideologia dominante.

Nas Redacções dos jornais jornalistas de grande competência foram removidos pela incomodidade que representavam. A decadência da Imprensa portuguesa, o elevado grau da sua imaturidade, a ausência de carácter na maioria dos jornais decorre daí. Ramalho Ortigão, que foi nosso mestre, disse que, “para se escrever nas folhas é preciso ter ombros largos.” Queria dizer que o jornalista, para o ser e enquanto tal, tem de saber enfrentar as armadilhas, as velhacarias que a todo o momento se erguem no caminho dos profissionais honrados.

Pouco podemos esperar desta democracia, repito. Os Governos (este, então, bate recordes) estão repletos de pingentes encardidos, cuja noção de serviço público é igual à de um eguariço a açoitar as bestas. O Executivo Sócrates, depois de ganhar as eleições com margem relativa, começou, imediatamente, a tripudiar sobre o programa que apresentara, semanas antes, ao eleitorado. Chama-se falta de palavra. Todavia, parece que os portugueses já se habituaram a esta continuada indignidade. Um cavalheiro é acusado de crime e logo se descobre que auferia o vencimento de 6 700 contos, moeda antiga. Um outro, que escuma de ira, quando vai à televisão e o contradizem, vai receber uma reforma de 3 600 contos mensais, “adaptáveis” à inflação, por ter exercido funções públicas, durante seis meses!, num banco. O rol não pára. E só raramente estes casos, de absoluta imoralidade, aparecem nas primeiras páginas ou abrem os noticiários dos telejornais.

A nebulosa do viver português leva-nos a conjecturar as mais sinistras tropelias e a desconfiar de meio-mundo, enquanto o outro meio está de remissa. A Justiça não está ao nosso lado, ao lado daqueles que não dispõem de dividendos suficientes para pagar a um advogado dos grandes escritórios. A imprensa, de uma forma geral, ignora-nos e aos nossos dramas. O futebol serve muito mais o poder, depois de Abril, do que durante o salazarismo. Serve-o como entorpecedor das nossas energias e das nossas indignações. Estas, estão pelas ruas da amargura.

O eng.º Van Zeller, nobre figura, vem à liça e quase que impede a miséria dos aumentos. O dr. Constâncio, socialista e tudo, ergue, medonho e implacável, a sobrancelha direita, e proclama o mesmo ou pior ainda. José Sócrates anda de beijinho com o PSD e enfurece o CDS-PP, que se presumia o privilegiado. O Bloco está à espera. O PCP desconfia, como é seu estilo. O PS não é nem deixa de ser. Claramente, esta situação opaca e suja não pode continuar. Os portugueses têm sido comprimidos entre o que dois partidos desejam. Nenhum é melhor do que o outro. Mas já não somos o que éramos ou, acaso, sempre fomos assim…

b.bastos@netcabo.pt


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As luzes e a mariposa

por Baptista Bastos

Obom Governo é aquele cuja acção se não sente. O axioma é bom; mas é um equívoco. Todos os Governos têm a mão pesada; logo, não há Governos bons. Sobretudo para a arraia-miúda. E é esta miuçalha que ainda gosta dos que com ela se preocupam. Acredito que a função da escrita reside nesta modesta epítome. Levo tantos anos de batucar prosa que se desenvolveu fortemente em mim algumas induções rudimentares. Por exemplo: os Governos são todos iguais, com as ligeiras diferenças nascidas dos voos dos seus hábitos. Pragmáticos, dizem. A definição mais acabada de indiferença para com os laços sociais.

Este, agora, é uma mariposa encandeada pelas luzes das câmaras de televisão. Viu-se a esfuziante alegria dos “novos” ministros, limpos e asseados, na passarela da Ajuda, e os grupinhos dos excluídos, ligeiramente acabrunhados, a fazer contraste. José Sócrates, com o encanto secreto e frio que o distingue, apenas mudou de pele. Lá dentro, é o mesmo. E o discurso que proferiu no-lo reafirmou.

É estranho, ou não o será, o facto de os comentadores do óbvio terem passado, rápidos, sobre a aspereza das palavras do engenheiro. A debilidade do dr. Cavaco, depois do melancólico fiasco das falsas escutas, e da sua triste fuga às responsabilidades, foi sobrepujada pelo que Sócrates disse. E disse, muito naturalmente, ser ele quem manda, com os seus obedientes discípulos e com os áulicos que o incensam. Como “autoridade moral”, o dr. Cavaco acabou. Desapareceu no funil por ele próprio construído. Aliás, o que disse foi pouco mais do que uma banalidade assustada. O dr. Cavaco está sempre mal neste tipo de cerimónias. Na Ajuda esteve pessimamente: ele era o indivíduo convidado a contragosto, o parente indesejado numa festa de arlequins.

José Sócrates tem as coisas na mão e a seu bel-prazer. Tudo vai gravitar à sua volta: a moral como ele a entende, e a ideologia da classe dominante, a que finalmente ascendeu. O PSD é um saco de lacraus, um ringue [Marcelo dixit] onde as questões se resolvem a murro, um concentrado de medíocres ambições. Não conta para nada, a não ser para a implícita conspiração permanente em que se enreda. Com os outros três do Parlamento pode ele muito bem. Aqui e ali estabelecerá relações de “civilidade”, outra palavra no circuito de quem claudica ante todas as vergonhas. Ali e acolá inventará práticas e conivências que lhe permitirão sobrenadar numa sociedade sem debates, num país sem pudor, sem respeito e sem dimensão colectiva.

As coisas são o que são. E parece impossível escapar a estas tensões e às implacáveis exigências de um tempo que perdeu de vista o reconhecimento da solidariedade e da igualdade. O horizonte da democracia avançada está cada vez mais distante. Mas há quem não desista.


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Tudo está em aberto

Cega e fora deste mundo

Há umas semanas convidei, em outro jornal, os leitores a observar os olhos da dr.ª Manuela Ferreira Leite: “está lá tudo aquilo que nos assusta.” Não exagerei. A bondade ausentou-se daquele olhar. E, como todas as criaturas inseguras, também lá reside uma espécie particular de rancor, a que os freudianos chamam “repeso ou adormecido”. Evidentemente este tipo de análise pende, sempre ou quase sempre, para o subjectivo. Devo acrescentar que nada de pessoal me move contra a senhora. Nem sequer a receio. Venho de um tempo em que os próprios medos ensinavam a defrontá-los. Mas estou de sobreaviso ante o que o futuro político nos reserva.

O PSD nasceu de uma mistura insólita. No mesmo almofariz juntaram-se velhos fascistas, republicanos tementes a Deus, padres à Guerra Junqueiro, alguns antisalazaristas e muito do espírito liberal que fundou a cultura ideológica do Norte. Francisco Sá Carneiro, que nunca se entendeu com esta barafunda, bateu com a porta algumas vezes, até mais do que aquelas que a história oficial no-lo conta. Porém, desejou pôr ordem num partido que representasse as correntes moderadas do País, sem abandonar um específico conceito de progresso.

Conheci Sá Carneiro. E ainda hoje mantenho admiração e respeito pelo indivíduo. Contudo, nunca entendi que raio de partido queria construir, associando gente de tão díspares ideologias, com poucas convicções e módico lastro democrático. O homem era teimoso. Modelar, com tal barro, uma agremiação minimamente coerente, era tarefa de gigante. Sá Carneiro morreu sem conseguir dar corpo ideológico e político às suas ideias, e sem perceber nada do que era aquele Partido Popular Democrático (nome dado por Ruben Andersen Leitão, meu amigo, e imenso escritor colocado no limbo pela nossa sacrossanta ignorância).

As escolhas da dr.ª Manuela para a sua bancada parlamentar correspondem a esse pequeno crisol do inferno que tem servido de peneira no PSD. A senhora seguiu o guião. Premiou quem a aplaudiu e excluiu quem esteve contra. O ressentimento aflorou-lhe aos olhos: era vê-los, quando saiu do agitado conclave. O corte assimetricamente biselado das suas pálpebras revelava um fulgor semelhante ao das fogueiras. A imagem é justa. Aqueles que a criticaram foram queimados em fogo brando. Quem quiser extrair metáforas sobre as labaredas da Inquisição, que o faça: mas a minha intenção é modesta e pretende ser educada.

Penso que a senhora sopesou bem os perigos desta “estratégia”. Passos Coelho não é só ele: por detrás está muita gente com poder e com dinheiro e, sobretudo, alimentada com rancores semelhantes àqueles que a fazem mover. A recuperação de velhos cavaquistas, assim como a afeição demonstrada pelo Pacheco Pereira, constituem, mesmo, um pesado desafio. O cavaquismo é matéria residual. E Pacheco Pereira é detentor da maior congregação de ódios existente no PSD.

Há anos, no “Diário Popular”, que foi um importante vespertino, e onde trabalhei, durante vinte e três anos, conversava com o Jacinto Baptista, então director, acerca de uma embrulhada que se registava no PSD, comparável à de agora. O Jacinto era um homem sóbrio, de voz mansa, proprietário de uma ironia sulfúrica, além de honrado e talentoso.

- Você já viu aquilo, Jacinto?, interroguei.
– É lá com eles. Eles são assim mesmo, respondeu-me.

Pensava, agora, ao batucar esta prosa, haver muito de verdade nas observações do grande jornalista. “É lá com eles. Eles são mesmo assim” são frases que correspondem à identidade daquele partido. Não se modifica, “por dentro”, nenhuma organização política. Os exemplos são muitos para que os ignoremos. Como é impossível alterar o rumo dos que, somente, ambicionam o poder pelo poder. Vivemos, nestes tempos, numa encruzilhada quase desesperante. Por um lado, o PS, ancilosado e patético, desprovido de qualquer sentido de honra e de ética. Do outro, o PSD, cujo ranger de dentes apenas começou a fazer-se ouvir, e que pretende ascender ao mando para se vingar da abstinência, apresentando uma cavalaria de montante em riste, disposta a tudo – menos a traçar um projecto para Portugal.

Evidentemente, que as “alternativas” não se resumem a estes dois partidos, cujos currículo nos assustam por preocupantes. Os portugueses têm de começar a habituar-se ao prazer cultural do risco. As manipulações a que têm sido submetidos ocupam todos os níveis conhecidos. A multiplicação de problemas de que estes dois partidos são responsáveis não tem nada a ver com as “rupturas” nem com “o novo tempo”. Tem tudo a ver com a desonestidade de uma gentalha que enriquece em pouco tempo, com um empresariado sem grandeza e sem imaginação criativa, e com o desinteresse doentio de um povo que parece não perceber a gravidade da situação que se avizinha.

Mas nem tudo está encerrado. Tudo está em aberto. Vejam aquilo que nos assusta.

Baptista Bastos in J. Neg.


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Recusemos a servidão

Não chegávamos a um milhão quando fomos ao mar. Metemo-nos numas “cascas de noz” e enfrentámos o medo e a superstição. Há qualquer coisa de inimaginável nesta epopeia. Lemos os cronistas, os historiadores e abrimos a boca de espanto. De então até cá fomos, gradualmente, perdendo a altanaria e tombámos na submissão. Pêro Vaz de Caminha tinha 63 anos, idade impressionante para a época, quando escreveu esse magno tratado de jornalismo, “Novas do Achamento ou Carta a Dom Manuel, o Primeiro”, que todo o aprendiz de repórter devia ser obrigado a ler. A prosa é fresca como uma alface. Rica em pormenores, fornece-nos a dimensão do humano e a grandeza que emerge quando descobrimos o que nos liga ao “outro.”

Entregávamo-nos à erudição dos sábios, à sabedoria dos capitães-de-mar, à ilustração dos pilotos. E, não aparecesse o Diabo a tecê-las, nas mãos de Deus, embora não fôssemos um povo muito temente. Éramos mais de desafios e de pancadaria. Até nisso o Camões é exemplar: soldado, poeta e brigão. A Inquisição veio dar cabo dessa genuinidade. Muitos de então preferiram a aventura do imprevisível ao olho agudo dos inquisidores. Ficar, amar pretas, amarelas, castanhas ou escarlates, criar num leito de nações a medida do respeito humano – isso é nosso, pertence-nos. Entre o sangue e a violência, colonizar é estuprar mas é, também, moldar com o barro e as puas do mato a cubata familiar.

Orgulho-me de pertencer a esta estirpe. E, quando as evidências da actualidade fazem renascer a minha nefasta melancolia, vou aos livros. Que povo assombroso era este que, mesmo com as labaredas de Dom João III atrás de si, enfrentou as forças terríveis de uma Igreja sem complacência, inclemente e feroz, e desenhou novos meridianos e abriu outros horizontes à insaciável ânsia de saber!

Que nos aconteceu para chegarmos a isto? O medo, o medo começou devagar, cercou-nos, larvarmente, avantajou-se, fez-se parte integrante do nosso modo de ser. Ainda nos não libertámos da ameaça latente. Os três séculos de Inquisição deixaram nódoas. O conceito de liberdade nunca foi apanágio de uma Igreja cumpliciada com o fascismo. E ela não podia dizer-se ignorante do que se passava. O que se passava era o cárcere, a tortura, o assassínio político, a desgraça em milhares de famílias, o decepamento da inteligência portuguesa, o exílio e a deportação dos melhores portugueses. As vozes recalcitrantes da própria Igreja foram caladas pelos bispos. É uma história medonha, cheia de sombras e de inquietantes crimes.

A crítica à igreja do salazarismo nunca foi feita. Nem a sua conivência com o capitalismo mais selvagem foi analisada à luz dos próprios tempos da conivência. O que acontece hoje, em todos os sectores da sociedade portuguesa, resulta dessa ausência de estudo e de apreciação. O medo nunca foi extirpado, o medo nunca foi seriamente removido. O medo alimenta a superstição religiosa, e sustenta a autoridade dos mitos sobre a razão. Não falo de fé. Isso é outra coisa e pertence aos domínios mais íntimos de cada um. Escrevo sobre os malefícios da crendice, que não só conduzem a cenas e propósitos deploráveis como representam uma técnica de servidão.

O cinquentenário da inauguração do Cristo-Rei, o Cristo da Outra Banda como lhe chama o povo, foi a demonstração, muitíssimo bem organizada, de um exagero que se pretende corresponder aos desejos populares. Foram utilizados, de novo, os meneios do medo, em horas de aflição popular. O recurso ao transcendente (no mais execrável sentido da palavra) transformou massas humanas desesperadas pelo desemprego, pela carência de perspectivas, pela fome e pela miséria, numa robotização infame.

O dinheiro que se gastou, em nome não se sabe bem de quê, a extrema manipulação das almas, as manigâncias do fanatismo não ajudam a reimaginar a política nem a reanimar a solidariedade – como pretende D. José Policarpo. Enfrentar e combater a espessa ameaça que persegue e domina os mais pobres não se faz com rezas nem com desfiles medievais. Os bispos sabem-no bem. A insistência nesses métodos é perversa: pode dar a ilusão momentânea de uma realidade aparente, mas não é nunca solução dos problemas.

A Igreja, em consciência, pode aceitar a ilusória legitimidade de um acto manuseado e controlador? As horas e horas seguida e extremamente maçadoras que a RTP (sobretudo) atribuiu às comemorações, foram um descalabro. Nem um comentário crítico, nem a mais leve análise histórica: tudo constituindo a representação da subserviência mais sabuja. É por estas e por outras que a democracia portuguesa, em trinta e cinco módicos anos de existência, é a mais conservadora, a mais retrógrada e, até, a mais reaccionária da Europa. E a mais frágil e ameaçada.

O medo exprime-se e faz-se representar das formas e dos modos mais diversos. E tende a ocupar todo o espaço de definição política, cultural e moral da nação. É um fenómeno conhecido de fragmentação social, que não conjuga nenhuma ordem de progresso, e serve de domínio, quase absoluto, de uma classe sobre outra. Temos de nos cuidar, se não quisermos pertencer à mais vil das servidões
Baptista Bastos J.Neg.


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Os ausentes da indignação

E m dez anos, João Ubaldo Ribeiro foi duas vezes censurado, no nosso País, por um zeloso vigilante da moral. O grupo proprietário da cadeia de supermercados Jumbo, voltou a pôr, no seu Índex privado, A Casa dos Budas Ditosos, por sinal um belíssimo romance. Acusação: o livro “é um produto pornográfico”. Ubaldo é baiano, escritor importante, viveu em Portugal, e já foi distinguido com o Prémio Camões, valha isso o que valer. Em condições outras, a extraordinária proibição suscitaria, entre os “intelectuais” portugueses, um alarido de protestos, de abaixo-assinados, de repulsa, e a comunicação social seria levada a transformar a vergonha em causa.

Nada disso aconteceu. Os “intelectuais” portugueses andam tão exaustos de escrever livros maus, de participar em colóquios ridículos, debates patéticos, conferências inúteis no estrangeiro, que são indiferentes às minudências da solidariedade para com os seus camaradas. Neste caso, a João Ubaldo Ribeiro.

Que abstrusos critérios levaram alguém do Jumbo a apontar à execração o romance do brasileiro? Que conceito de “pornografia” possui o pequeno Torquemada de supermercado? E de que extraordinário poder dispõe, que iluminada noção de valores contém, com que espírito superior foi bafejado para assim atirar pedras a uma obra literária editada em numerosos idiomas? E, sobretudo, quem é ele? Esse “ele” não tem nome, como aqueles blogues que insultam, injuriam, mentem, caluniam com absoluta impunidade. Esse alguém, misterioso e, certamente, crudelíssimo, de olho feroz e ânimo comprometido com as trevas, usa uma “agência de comunicação” para revelar as suas tristes decisões. Não dá a cara: é um esboço de pessoa, um ser vago, estéril, arfante de gozo como todo o censor que se preza.

O romance foi proibido no supermercado e – insisto – que fizeram os nossos desenvoltos “intelectuais”? Limitaram-se ao silêncio que tem sido a capa da cobardia na qual se envolvem. Nelson de Matos, o editor, diz que tem recebido solidariedade de “gente grada”. Ninguém sabe, ninguém viu, como se canta no samba. Essa “gente grada” também não tem nome? Protesta por sussurro? Telefona-se com cauta indignação e voz baixinha? Então, e a APE, e a SPA, também andam meio aladas?

Ao longo dos últimos vinte anos temos assistido à mais vil das demissões daqueles que deveriam arriscar o ónus da sua pretendida importância. Habita, neste mutismo miseravelmente defensivo, uma viscosa e esgueirada indignidade. Claro que é uma imprudência, um perigo, um desafio alguém afrontar os poderes que se constituíram como as estruturas da sociedade. Porém, há ocasiões em que os “intelectuais” têm de estar à altura das circunstâncias – as próprias e as históricas.

Baptista Bastos no D.N.


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A época da velhacaria

Vinte e duas empresas foram objecto de processos-crime por falência fraudulenta. Só vinte e duas?, perguntará o leitor, movido por indignada curiosidade. Lembremo-nos, apenas, daquele cavalheiro, um dos homens mais ricos de Portugal, que, há não muitas semanas, resolveu pôr, no olho da rua, quase cento e cinquenta trabalhadores, “como medida de prevenção”. Um acto desta natureza releva de repugnante indignidade. O sujeito em questão não foi incomodado, sabendo-se, embora, da falácia do despedimento.

Aliás, a nova lei do trabalho está cheia de iniquidades, resguardadas com a “letra” e respaldadas no que se designa de “protecção dos trabalhadores”. A hipocrisia, com a chancela deste Governo, foi veementemente aplaudida pelo patronato, o qual, para armar aos cardos, disse, em uníssono, que era ainda necessário proceder a umas “pequenas alterações”. A velhacaria aumenta de volume.

Vivemos neste universo de canalhice e num inferno social e político. Há dias, um dos preopinantes desse extraordinário programa “Quadratura do Círculo” ficou ofendido quando percebeu ser ali dito que a Direita não era favorável à igualdade social. A criatura, conhecida pelos dislates que comete, pelas tolices que formula, e pelas extravagantes fatiotas que enverga, é um daqueles casos de estudo que o falhanço do 25 de Abril conduziu ao plinto da notoriedade.

A Direita foi e é o que é. O Marcelo Rebelo de Sousa, há anos, ferrou-a com uma frase conclusiva: “A Direita portuguesa é a mais estúpida da Europa”. Em relação ao preopinante referido, não sou eu quem vai desdizer o professor. E adianto: a Direita não é só arrogante, com escassas meninges e cabeça de alfinete como se julga dever deter o poder por graça divina. Dir-me-ão: nem toda a gente de Direita é aquilo que você diz. Nem toda a gente, é verdade. Porém, tenho dificuldade em descobrir mais do que se conta pelos dedos de duas mãos abertas. Depois, há sempre uma certa dificuldade em discutir ideias, livros, filmes, peças de teatro, artes. A barafunda, aí, atinge a esquizofrenia.

Um velho amigo do PSD, repito, para não haver engano: um velho amigo do PSD dizia-me, num dos almoços regulares em que nos encontramos: “A Direita portuguesa não dispõe de património intelectual, nem o martirológio da Esquerda, que é, também, uma grandiosa herança moral”. Talvez assim seja, talvez. A verdade é que, a propósito do 25 de Abril, avisaram-me de que os blogues direitões encheram-se de insultos ao Zeca Afonso, de ameaças aos capitães da Revolução e de vivas a Salazar. Não é importante. Nem sequer é significativo. Todos os cobardes acolhem-se no anonimato, e insultar um homem e um artista da dimensão do Zeca Afonso passa a ser um espinoteante tolejo.

O facto de o norueguês Knut Hamsun ter sido traidor à pátria; de Brasillach e Drieu La Rochelle e Lucien Rebatet e Céline possuírem estofos de canalhas, não invalida nem sequer diminui os seus estatutos de grandes escritores. Aliás, grosso modo, é a Esquerda (muitíssimo mais generosa) que tem promovido a glória daqueles e de outros assim. A minha fama de sarrafeiro é injusta, embora não me aqueça nem arrefeça. Levo muitos anos de prosa afiada, e se ter carácter implica obus, pago o preço. Não sou nem mais nem menos do que aqueles (infelizmente, hoje, muito escassos) que, movidos pela indignação, surgem aos olhos dos medrosos como “comunistas imprecadores”, insólita definição de que tive divertido conhecimento. Pessoalmente, quando entendo que a razão me alimenta, pego no estadulho e vou a terreiro. É só.

Se analisarmos, modesta e levemente que seja, o cenário da Direita, verificamos que, entre ela, o entendimento também é dissonante. A Esquerda não se entende, fenómeno histórico decorrente das pequenas lutas pelas hegemonias. Mas a Direita entredevora-se. Observe-se o PSD e os seus tenores. Os ódios enredam-se numa teia que atinge os territórios do assassínio cívico. Aqueles que, durante os últimos anos, ocuparam lugares chorudos e empregos sumptuários, deixam, com dificuldade, os cargos aos que chegam. Esta saca de escorpiões é de tal ordem e de tamanha voracidade, que Sá Carneiro chegou a dizer: “Esta gente é do pior que habita Portugal”. E deixou o partido a outros.

O PSD de hoje, quase desfeito, sem rumo nem projecto, é a imagem devolvida do que sempre foi. Possuía uma zona de interesses, presumivelmente imóvel, com os vampiros que se substituíam uns aos outros, com insistente zelo e registo. Veio o PS do «socialismo moderno» (quer dizer: sem freio e sem vergonha) e ocupou-lhe o lugar. O descalabro aí está. E ambos os partidos representam as ruínas prévias de uma indignidade abjecta.

Que nos resta? O voto? Apesar de tudo, ainda acredito no poder do voto. Mas também acredito na omnipresença dos grandes manipuladores, na existência de jornalistas venais, e num povo indefeso e desgraçado.

Baptista Bastos no J.Neg.


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Quando fomos protagonistas da História -Baptista Bastos

Esta gente que nos governa nada tem a ver com o 25 de Abril, nem, sequer, com o espírito da Revolução. Repare-se que o dr. Cavaco recusa colocar, na lapela, o modesto cravo que foi o símbolo de um sonho e o sinal de uma esperança – que esteve mesmo ali, à mão de semear. Mas o dr. Cavaco entende que o cravo é um sinistro emblema ideológico, admitindo que nada tem a ver com isso. Isso – é o 25 de Abril. Pessoalmente, não me choca a decisão do dr. Cavaco: foi um desses homens que jamais associou o seu nome às batalhas pela liberdade, limitando-se a aprender inglês, na serenidade bucólica de York. Porém, o cravo, como insígnia do “dia inicial, inteiro e limpo” [Sophia de Mello Breyner] não é de Esquerda nem de Direita. Alguém tem ensinado mal o dr. Cavaco.

Olhamos a galeria de gente que ascendeu ao poder (aos poderes, para ser mais exacto) e, ao fazermos uma triagem, registamos que poucos são aqueles que nos representaram, que nos defenderam, que prestigiaram o “dia inicial.” Os mais puros e desinteressados foram afastados, removidos, ignorados e, até perseguidos com feroz verdete. Pouco há do 25 de Abril, cujos trinta e cinco anos amanhã comemoramos, com negra descrença e densa infelicidade. Aprendi que as revoluções devoram os próprios filhos. Mas não me conformo, embora reconheça que pertenço a essa legião de homens e mulheres que esperou, esperou, esperou, acaso acima da realidade e da História.

Quando ouço execrar Otelo Saraive de Carvalho e incensar Jaime Neves, torna-se evidente que uma casta de interessados demonstra, apenas, as ideias de uma classe extremamente medíocre, e repassada de ódio. Recordemos que foi num Governo do dr. Cavaco que se recusou a pensão de viuvez à mulher de Salgueiro Maia. E se cometeram outras indignidades.

As estruturas do poder foram levemente amolgadas. Os pides, cedo libertados, e os seus crimes abafados, auferem ou auferiram reformas importantes. Quanto aos magistrados que destruíram, nos Tribunais Plenários, a vida de milhares de antifascistas, envelheceram e morreram na tranquilidade do lar: nem um deles foi incomodado. Há semanas, o dr. Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, afirmou, com a coragem que se lhe reconhece, mas que alguns dos seus pares detesta, a enormidade do escândalo de uma corporação que se defende e protege com unhas e dentes – infensa à ordem moral das coisas.

O 25 de Abril foi. Os desfiles que o celebram apenas revertem para uma memória que a classe possidente abomina, e que a maioria dos jovens ignoram. Torga, o grande Torga, a quem a pequenina Clara Ferreira Alves vitupera, apercebeu-se, logo em 1975, o que aí vinha. Escreveu, no XII volume do “Diário”, a 20 de Junho daquele ano: “Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que, apesar de tudo, valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram na véspera do terramoto.

Cuidavam que combatiam pelo futuro e, na verdade, assim acontecia, mas apenas na medida em que o sonhavam como se ele tivesse de ser coerente com a dignidade do seu passado de lutadores. O trágico é que um futuro sonhado não passa de uma ficção. O tempo é um lugar do inédito. O futuro autêntico é sempre misterioso e autónomo das premissas do que partiu. Quando chega, traz os seus valores, as suas leis, a sua gente, nem boa, nem má. Traz os títeres que lhe convêm. Ou pior: os títeres a quem a hora convém.”

É um retrato terrível e apropriado ao tempo que estamos a viver. Um tempo de títeres. Diariamente, aparecem em todas as televisões, em todos os jornais, em todas as revistas. A maioria daqueles que passam estão, estiveram ou vão estar nos Governos. Logo que saem, entram em empresas, companhias, sociedades relacionadas com as pastas ministeriais onde exerceram funções. Abjuram das convicções e dos ideais de juventude; ou não abjuram: nunca os tiveram e andaram a enganar-nos. No YouTube, entre outras histórias exemplares, lá aparece o Durão Barroso, cabelos longos, muito maoísta e muito defensor dos operários e dos camponeses. As declarações que presta a um repórter alimentam-se de um carácter definitivo. O retrato do homem já ali está. A troca de lealdades será sempre a marca d’água da criatura. Mas ele é, apenas, um deles. Os títeres.

Amanhã vai comemorar-se uma data que poderia ter sido e não foi. “Acusam-me de mágoa e desalento”, cantou Carlos de Oliveira, outro maior. A infelicidade dele, no final da vida, preconizava a infelicidade dos que sonharam em voz alta. Já nestas páginas o disse: fui um dos que embalou a utopia da cidade nova. E éramos muitos, podem crer. O turbilhão daqueles anos foi a expressão de uma épica que iria devorar-se a si mesma. Nunca soubemos conduzir revoluções, atraídos pela festa, pela absurda ideia de que a juventude não se perde nem se escoa. Fomos envelhecendo, sem compreender muito bem a velocidade insana do tempo. E aqui chegámos trinta e cinco anos depois, desiludidos e fatigados, porém com a certeza de que tínhamos sido protagonistas e não espectadores da História.
Amanhã vou desfilar.

J. Neg.


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A revolução que falhou

Que vamos comemorar no sábado? O “dia inicial inteiro e limpo” [Sophia de Mello Breyner]? Mas que resta desse dia? As ruínas de uma história que se perdeu nela própria. A avenida encher-se-á, como de hábito, e os discursos, no Rossio, alegres e decididos, dissimulam a melancólica gravidade de uma peregrinação que se faz por uma memória feliz, tornada triste e antiga.

Ocultamos a dor do que perdemos, é isso. A multidão reflui, gritando estribilhos antigos, miméticos e elementares. “Fascismo nunca mais!” “O poder está no povo!” “Os ricos que paguem a crise!” Animamos a nossa profunda descrença, com a ressurreição nostálgica de um tempo delido que vai ficando efeméride.

Fomos envelhecendo e agarramo-nos à data como quem não quer extraviar–se da irremediável perda da juventude. Porque éramos todos muito novos; ou, pelo menos, muito mais novos. Olhamo-nos, saudamo-nos uns aos outros, joviais e excessivos. Porém, pertencemos a outra história. Festejamos o dia como se o dia representasse a rapariga, a festa, a alacridade e as cores da adolescência. A rapariga já não possui segredos, a festa emudeceu, a alacridade acabrunhou-se, as cores oscilam entre a metáfora e o que imaginamos.

Mas vamos, estamos, elementares e claros, porque ir, estar, desfilar, sorrir, acenar, partilhar, enriquece mais do que a reticência e fortalece mais do que a indiferença. Talvez o dia seja um marco denso e, acaso, desmesurado para a cruel realidade do momento. Talvez. No entanto, acreditamos que há algo de transcendente desespero em celebrarmos uma revolução que falhou.

Velhos fantasmas, pontuais e exactos, emergem da nossa cultura caótica e da nossa vocação para o submisso. A ordem, a segurança nas ruas, a obediência à autoridade, a uniformização reaparecem nas conversas avulsas, como que por casualidade. As coisas encadeiam-se nas coisas numa espécie de pensamento figurativo. E, no entanto, há trinta e cinco anos, todos e cada um de nós posava de leão indomesticável. As nossas fragilidades congénitas e os nossos ressentimentos ancestrais tapávamo-los com gritos, com frases rimadas, com gestos incoerentes porém vitais. Éramos, afinal, ostensivamente livres e acintosamente exibicionistas.

Sabe-se quem travou a marcha ruidosa e feliz. Conhece-se os nomes daqueles que, na sombra e no silêncio, isolaram e subjugaram, de novo, as nossas emoções. “Acabou a tua festa, pá!”, cantou Chico Buarque de Holanda. O epitáfio definia o cansaço e a derrota. Aí estão as sobras demoradas da nossa juventude. Aí está o refugo de um sonho que tinha a dimensão do homem.

Afinal, vamos comemorar a nostalgia.

por Baptista bastos , D.N.


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Os números do desespero e da afronta

Baptista Bastos
b.bastos@netcabo.pt

Somos os primeiros em todas as desgraças. E o discurso oficial declama que as coisas não estão tão más quanto a Imprensa o diz. A verdade, por muito dolorosa que seja, não faz parte das inclinações do Governo. Pode-se compreender que o papel daqueles senhores será o de amenizar as angústias colectivas. Mas, que diabo!, tapar o sol com a peneira já deixou de ser ridículo: é uma indignidade.

As estatísticas forneceram-nos dados sobre as novas iniquidades. Há dois milhões de portugueses a viver na faixa da pobreza. E a mancha não vai parar por aqui. Pessoas que tinham emprego, a vida organizada, um sorriso nos lábios, ficaram desempregadas, muitas foram corridas das casas por ausência de pagamento, entraram nas fileiras dos sem-abrigo, estão crucificadas na própria dor.

Entretanto, os mesmos jornais que nos aviam estas pavorosas informações, falam-nos dos vencimentos faraónicos dos “gestores” e das indemnizações auferidas logo-assim vão embora das administrações onde exerciam cargos. O número de “gestores” que infestaram o tecido social português é de bradar aos céus. Até o dr. Cavaco se pronunciou sobre o escândalo, embora a anomalia, até hoje, não tenha sido corrigida.

O problema é que nem os chamados “jornais de referência”, nem um certo semanário, de grave aparência e futilidade dissimulada, vez alguma se dedicaram, com seriedade, insistência e rigor, a revelar os aspectos mais vergonhosos e sórdidos deste assunto. “Quanto custa um rico a um país?”, inquiriu Garrett, na obra-prima “Viagens na Minha Terra.” Quanto custa um “gestor” a Portugal?, pergunto eu, modesta e humildemente. Uma vistoria do impropriamente designado “jornalismo de investigação” conduziria, inevitavelmente, a um caudal de escândalos.

Os ordenados, as gratificações por “objectivo”, as mordomias, as benesses, os privilégios obtidos pelos “gestores” atingem as zonas da obscenidade. Nunca, jamais, em tempo algum esse assunto (essa “matéria”) mereceu honras de primeira página e reportagens desenvolvidas.

Os problemas mais graves da nossa sociedade são minimizados, e o que, normalmente, constituiria frivolidade é colocado no alto da pirâmide. Os “teóricos” da “distanciação” possuem, aqui, um aliado poderoso. Distanciam-se, cada vez mais, do essencial e impõem o supérfluo. Ignoram, com falácias de “modernidade”, o que nos cerca, divide e domina. As emoções são suprimidas. Os sentimentos cada vez mais limitados. E as palavras, o vocabulário, revelam a franciscana pobreza de quem circunscreve o idioma ao linguajar dos eguariços.

Dois milhões de pobres! Vinte por cento da população portuguesa sobrevive entre a miséria e a falta de perspectivas. Avisam-nos que o número vai aumentar. Tudo o que é negativo, no nosso pobre país, vai aumentar: o desemprego, as falências, a desistência de alunos nos cursos superiores, a corrupção, a inércia desacreditante das autoridades. Como se canta no último álbum dos Xutos & Pontapés (já no YouTube): “Anda tudo do avesso/Nesta rua que atravesso./Dão milhões a quem os tem/Aos outros um passou bem. Não consigo perceber/Quem é que nos quer tramar/Enganar, Despedir/E ainda se ficam a rir/Eu quero acreditar/Que esta merda vai mudar/E spero vir a ter/Uma vida bem melhor.”

Há um descontentamento generalizado, ante o qual os sorrisos de José Sócrates surgem como uma demonstração pornográfica. Afirmam os ministros e seus apaniguados que atenuam as situações para não causar pânico. Bom: a ignorância ou a imbecilidade destes cavalheiros faz mossa. Então, desconhecem o que se passa no País? Os novos pobres juntam-se aos velhos pobres e formam legião. Mesmo que a comunicação social seja avara em imprimir manchetes, e que as televisões abram os noticiários com a chacina do futebol (que se converteu numa imoralidade jornalística, por acrítica); mesmo que a cegueira cívica seja imposta por um analfabetismo irremediável – não é já suportável que o Governo vire a cara para o lado.

Vinte por cento da população portuguesa sobrevive entre a miséria e a falta de perspectivas – repito. Os pais abandonam os filhos; a fome ataca os nossos miúdos; os nossos velhos andam por aí, meio tolos, meio espantados; homens e mulheres com mais de trinta e cinco anos não encontram trabalho (não é emprego: isso é para os “gestores”; é trabalho); os suicídios, no Alentejo, multiplicam-se; operários altamente qualificados tentam ganhar a vida no estrangeiro, em tarefas menores. O panorama é deprimente. E as acções governamentais quedam-se em resultados inválidos ou em perdas de milhões entregues a multinacionais, que escapam para países de mão-de-obra ainda mais barata do que a portuguesa.

Tem-se a sensação da inutilidade dos senhores do mando. E acentua-se a ideia de que somos tratados como matóides ou mentecaptos, sem vontade própria, e acossados pelo medo de tudo. Os portugueses estão cercados pelas maiores misérias e angustiados e perplexos por não saberem o que fazer e como reagir.

Esperamos, quê? Jorge de Sena, há muitos anos, já tinha perguntado: “Que Portugal se espera em Portugal?” Nunca soubemos responder.

baptista bastos in J.N.


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“…Mas as crianças, Senhor…”

A sociedade portuguesa perdeu, há muito, a noção de valores e tripudiou sobre as regras de convivência. Lenta mas inexorável uma endemia de dissolução alastrou, de tal forma, que põe em causa a própria razão do ser individual. Abandonámos um conceito de destino e desinteressámo-nos da ideia de futuro, se alguma vez a ambos tivemos. Antero e Oliveira Martins disseram que não. Causticámo-los com o ferrete de cépticos. Desprezámo-los quando devíamos tê-los estudado. A República animou-nos, mas a festa durou pouco. Meio século de cantochão, bota cardada, medos vários, foram as insígnias das nossas obediências. No Abril antigo, o bandolim pareceu tocar a nossa música. Pregámos um susto às bem-pensâncias, andámos a lavar as ruas, a oferecer à pátria um dia de salário e a gritar um estribilho que fora funesto no Chile: “O povo unido jamais será vencido!” Pois sim!

Fui um daqueles que deitou foguetes. E ainda me resta uma pequena fagulha, apesar de o desemprego correr a galope, de os nossos velhos morrerem nos jardins, e de termos atingido, agora, a abjecção com o que fazemos aos nossos miúdos: abandonamo-los, enchemo-los de miséria, de fome e de morte por extinção moral.

Anteontem, os jornais alargaram-se em notícias sobre estes sacrilégios. Porque há pais que abandonam os filhos? Que desespero incontido pode levar alguém a deixar uma criança à bússola do acaso? E que bizarro mecanismo mental encaminha progenitores a não dar de comer aos seus miúdos, mas a adquirir-lhes roupas de marca? Pensemos duas vezes.

A família tem cada vez mais dificuldade em se representar. Mas foi a família que se não opôs às imposições de uma sociedade, cuja inconsistência transformou o secundário em primordial. O desprezo pelos miúdos conduz a conflitos profundos com as suas personalidades. Porém, o Estado abandonou os pais, e os pais deixaram de se interessar, no essencial, pelos filhos. O círculo ainda não encerrou. E as notícias a que me refiro advertem da existência de uma compressão da época e de um mal da alma, resumidos nesta frase medonha: “Não tenho tempo a perder.”

Não temos tempo a perder com quem? Com os nossos filhos? Com os outros? Connosco próprios? Estamos a encurtar tudo (a vida, o amor, a amizade, o ócio) com melancólica leviandade. “Às duas por três nascemos/às duas por três morremos/e a vida?/não a vivemos” – ensinou Alexandre O’Neill. Nunca ouvimos os poetas.

Não há unidade nem absoluto possível se não conseguirmos travar a marcha de um sistema doente, cuja natureza se opõe à partilha, e tem destruído e aniquilado o melhor dos nossos sentimentos e emoções.

Baptista Bastos no D.N.


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Esboço para um retrato de mordomo

 Prémio Europa

A barafunda que vai no PS sobre o apoio que o partido deu à reeleição de Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia resulta, novamente, da tineta autoritária de José Sócrates. Foi este, pelos vistos e ouvidos, grande amigo daquele, que o impôs. O PS, no seu todo ou mesmo em parte, não foi indagado nem achado sobre o assunto. Ora, Durão Barroso não é muito querido dos socialistas, nem sequer de muitos sociais-democratas. Como tem acentuado Mário Soares, o homem é dado a duas e três lealdades, e foi o mordomo da “Cimeira da Vergonha”, nos Açores, que incendiou o mundo e colocou no banco dos réus os senhores Bush, Aznar e Blair.

Durão é uma sobra, mas nem por isso menos vergonhosa. Vimo-lo, com aquele sorriso de pé-de-cabra, bajulando Bush. Vemo-lo, com o mesmo sorriso, agarrado a Obama. Notoriamente, os dois desprezam-no. Há, na configuração moral de Durão, algo de amolgado. Não é pessoa para merecer a nossa reverência e o nosso respeito.

Na Comissão Europeia mais não tem feito do que seguir o cherne. A metáfora, contida no famoso poema de Alexandre O’Neill, e tão curiosamente citada pela esposa de Durão, reflecte o estofo do homem e o estilo do político. Nos corredores de Bruxelas é objecto de devastadoras anedotas. Aqui, modestamente, em Portugal, ninguém o toma a sério. É uma figurinha ridícula, por vezes patética. O português comum vê-o como um arfante maratonista da vidinha; e sorri, ante tantas demonstrações de sinuosidade, antes de o reduzir àquele lote de espertalhões de que a política portuguesa foi empanturrada.

Estamos, ou não, fartos desta gentalha, ausente de convicções, desprovida de grandeza, apenas propensa a tratar de si e cuidar da família? Tem sido a nossa indiferença, a nossa ignorância e a nossa tradicional moleza de espírito que fez nascer uma corja alapada no poder e que vai corroendo os já débeis alicerces de uma democracia incumprida.

Durão Barroso é o exemplo típico de uns tantos que não querem perder tempo com ninharias anacrónicas como a honra, a inteireza de carácter, o espírito de missão. Foi maoísta denodado e virulento, fase religiosa ultrapassada por outra fase religiosa; frequenta amigos da Direita do sarrafo; vai à Europa tomar ares; de súbito, a morte de Sá Carneiro estremece-o de comoção e de assombro. Tudo indica que teve uma visão transcendente do destino. Vemo-lo, curvado de humildade e de dócil submissão, ante o dr. Cavaco. O dr. Cavaco teria notado, em Durão, a figura de um jovem turco, emoldurado em oval, com fundo carmesim envelhecido. Ademais, segundo a interpretação do dr. Cavaco, era sério, católico, bom chefe de família. A carreira conservadora e casta do ex-maoísta começou aí. No Ministério dos Negócios Estrangeiros era olhado de viés pelo titular da pasta, João de Deus Pinheiro, “bon-vivant”, mais dado às alegrias do golfe e às festivas visões de mulheres bonitas do que às maçadoras subtilezas das artes diplomáticas.

Nos intervalos destas estopadas (“amolações”, diria o Palma Cavalão) citou Maria Gabriela Llansol, ninguém percebeu porquê. Era, somente, para atribuir ao discurso uma “nota cultural”, numa terra e num tempo em que o dr. Santana falava no concerto para violino, de Chopin; e o dr. Cavaco confundia Tomas Mann com Tomas Moore.

Não tardou a ascensão imparável de Durão. Até chegar a fugaz primeiro-ministro e, logo-logo, aceitar as funções de representante intelectual dos Estados Unidos na Comissão Europeia foi um ápice, foi um sopro, foi um espanto. Sabe-se o que tem sido e é a trajectória de Durão. Uma mediocridade desembaraçada; um passo estugado, falsamente demonstrativo de intenso dinamismo; e, sobretudo, aquele sorriso que se tornou medonho e grotesco com o decorrer dos anos.

No entanto, não creio que Durão Barroso seja, ou alguma vez o foi, “símbolo do neoliberalismo.” O homem não possui categoria, é tido como um sujeito menor no contexto dos políticos que andam e, na realidade, mandam na Europa. Sempre serviu de mandarete dos norte-americanos, como, aliás, se tem registado, ou dos interesses das estratégias do eixo França-Alemanha. A verdade aí está, hedionda e poderosa: ele segue o rumo dos ventos e, ao contrário do que nos foi inculcado, em notícias e reportagens e crónicas subscritas por antigos camaradas maoístas, jamais Durão Barroso beneficiou Portugal, escassamente que fosse. Nem, sequer, o poderia fazer.

Confesso: chego a ter pena de Durão Barroso e dos tristes papéis que desempenha, sem brio e sem amplitude; zeloso, obediente, ausente de um arrebique, de uma bizarria, de um protesto. Coitado! Lá está ele a sorrir aquele funesto sorriso do inconvicto. Um homem que talvez pudesse ter sido e não foi: é, modicamente, um destinatário, nunca um remetente. É pena.

Fonte:Baptista Bastos  J.Neg.