As férias são um período sociologicamente elucidativo sobre os grupos sociais modernos. No mínimo, dizem muito sobre uma cultura e os estilos de vida a ela associados, como acerca de uma dada situação económica. E até desvendam, no campo político, coisas surpreendentes, sobre as instituições e os actores que as protagonizam.
Ainda ontem ficámos a saber que o Presidente da República mandou fechar o espaço aéreo por cima da sua casa, na Praia de S. Rafael, em Albufeira. Descontado algum segredo de Estado sobre a segurança de S. Exª – embora não se imagine que uma qualquer Alcaeda ande por aí a querer ferir de morte o Ocidente, atentando contra a vida de Cavaco Silva – a decisão, para além de original é, também, no mínimo, inusitada.
Claro que se percebe o gosto da família presidencial pelo sossego, tal como a vontade de garantir que não vem por aí um qualquer paparazzi, fotografar suas excelências, em poses ou trajes menos consentâneos com a dignidade do Estado. Compreende-se.
Por mim, se pudesse ir de férias, apesar de não ter uma casa na praia, gostaria de interditar o bocadinho de mar onde me refrescasse, às motas de água e aos barquinhos velozes que, diga lá o que disser a lei, infernizam a cabeça aos veraneantes com o ruído dos motores, e avançam tantas vezes até ao areal, poluindo a beira mar com o seu infecto rasto de óleo. Mas manda quem pode e eu, e outros vulgares cidadãos, não podemos.
Mesmo ir de férias é, como dizem os jovens, um “ganda abuso”, porque a maioria dos portugueses não tem posses para tal extravagância. E até os que esquecem a dificuldade e arriscam enterrar-se mais no poço do crédito que, despudoradamente, a banca continua a oferecer, são obrigados a fazer cortes. Menos dias de férias, casas alugadas no mercado paralelo, apartamentos divididos, campismo, redução de consumos em restaurantes e bares, sandochas e refeições em casa. Em suma, o Algarve dos remediados e dos endividados.
Enquanto isto, os locais de luxo, com preços proibitivos para a esmagadora maioria, como Vale de Lobo ou a Quinta do Lago, entram facilmente em “overbooking”, claro que com a ajuda dos ingleses mas também com muitos portugueses à mistura. Tudo normal, portanto, num país em que quase metade da população é vulnerável à pobreza e tem de tapar os ouvidos quando passa um avião. Como dizia o outro, é assim a vida.
In J.N.