A ILUSÃO DO “MILAGRE IRLANDÊS”


Durante os últimos anos, o chamado “milagre irlandês” era apontado por vários analistas da nossa praça como exemplo a seguir pelos portugueses.
Distinguia-se nesse aconselhamento o famigerado COMPROMISSO PORTUGAL (em cujo site, http://www.compromissoportugal.pt/, se podem recordar as loas a que era votado esse modelo).

Mas veio a crise e e o “milagre” deixou de existir. Os bancos irlandeses entraram em pré-falência e o estado irlandês teve de os socorrer.
Agora até há quem lhe chame:

O desmilagre irlandês

Francisco Sarsfield Cabral, um conservador sensato e moderado, no seu último artigo no Publico, analisava de maneira curiosa o que ja se chamou o milagre irlandês – que tanto o fascinara a ele e à generalidade dos liberais. Depois de reconhecer que «o milagre acabou e que a Irlanda está hoje a braços com um aperto financeiro e económico de proporções dramáticas», conclui uma coisa que já outros tinham antes denunciado: que «o crescimento económico pouco contribuiu para debelar a pobrea na Irlanda».

Há muito que se denunciava o facto de a Irlanda enriquecer à custa da maior pobreza dos irlandeses (apenas uma minoria beneficiava do sistema liberal de desevolvimento do País).

Mas Cabral reconhce ainda isto: «Os agricultores irlandeses beneficiaram muito com o proteccionismo da política agrícola europeia».

Conclusões: afinal, o proteccionismo nem sempre é mau,  mas o enriquecimento de um País sem ter em conta o bem estar da população é sempre péssimo. Ou seja: não é verdade que, enriquecendo os empresários, se enriqueça a população. A distribuição da riqueza não é um mecanismo normal do mercado liberalizado, e o Estado faz cada vez mais sentido. É pena é terem desaparecido os partidos – os de esquerda ou os democrata-cristãos – que defendem a redistribuição as riqueza.

http://sol.sapo.pt/blogs/pedrodanunciacao/archive/2009/02/13/O-desmilagre-irland_EA00_s.aspx

Mas na própria Irlanda havia quem não acreditasse no “milagre”, como o conhecido e influente jornalista irlandês Fintan O’Toole (que escreve regularmente para o jornal inglês The Guardian).  Já em 2005 isso era denunciado entre nós.

Vejamos o que foi publicado na edição portuguesa n.º 15 do Courrier International:

“Um modelo, a Irlanda? Deixem-me rir!

A ideia de que os europeus deviam seguir o exemplo irlandês assenta numa ilusão. Embora a economia esteja a prosperar, as coisas não correm melhor do que em qualquer outro país no que se refere à saúde, ao ambiente e à educação.

O debate irlandês sobre a crise na União Europeia (UE) baseia-se numa convicção presunçosa: a velha Europa teria muito a aprender connosco. Encontramos soluções para todos os problemas, quando eles estão prisioneiros do passado e do modelo obsoleto do Estado-providência. Mas detenhamo-nos na realidade irlandesa, para a colocar em perspectiva com as outras realidades europeias.

Vejamos primeiro a saúde. A Irlanda apresenta uma das piores taxas de mortalidade masculina da União e a mais curta esperança de vida dos homens. A mortalidade perinatal é a mais elevada entre os 15 membros originais e a mortalidade devido a doenças respiratórias, tanto nos homens como nas mulheres. Só o Quirguistão, o Cazaquistão e o Turquemenistão registam mais óbitos por cancro do pulmão, asma, pneumonia e doenças pulmonares obstrutivas crónicas do que a Irlanda e o Reino Unido.

A protecção do ambiente não está na melhor situação. Ganhamos regularmente a medalha do maior infractor da União, com duas vezes mais advertências, no ano passado, do que a França, que tem dez vezes mais habitantes do que a Irlanda. Com apenas um por cento da população europeia, somos objecto de 10 por cento das queixas da Comissão de Bruxelas em questões ligadas ao ambiente e também somos o pior aluno europeu em matéria de controlo das emissões pelas alterações climáticas.

Vamos agora à educação. Na Irlanda, uma turma do ensino básico tem, em média, 24,5 alunos, o que é muito superior à maioria dos nossos parceiros: 19 alunos por turma na Dinamarca, 20 na Bélgica, 18 na Itália e 15 no Luxemburgo. Em matéria de línguas estrangeiras, os irlandeses posicionam-se em terceiro lugar na classificação dos menos dotados, à frente dos britânicos e dos húngaros. Por fim, a nossa taxa de iliteracia nos adultos é uma das mais elevadas, não apenas da Europa, mas no conjunto dos países desenvolvidos.

Quanto aos critérios sociais, a Itália é o único país europeu a rivalizar com os nossos resultados16 por cento dos miúdos irlandeses vivem na miséria. A percentagem de irlandeses que vivem na pobreza após receberem os subsídios do Estado é a mais elevada da UE, a par dos gregos e dos eslovacos. O nosso país também se classifica em quarto lugar na desigualdade dos rendimentos. E, de acordo com o programa da ONU para o Desenvolvimento, ocupa a segunda posição entre os países mais afectados pela pobreza e as desigualdades no seio da OCDE, a seguir aos Estados Unidos e, portanto, à cabeça da UE. em matéria de pobreza das crianças:

Aviso aos preguiçosos franceses e aos apáticos alemães, perfeitamente incapazes de criarem nos seus países um verdadeiro ímpeto dinâmico: estão à procura de um modelo de sucesso, alicerçado numa estratégia nacional forte com base na incompetência dos poderes públicos? Não procurem mais, têm a Irlanda…”


Por: Fintan O’Toole, The Irish Times, Dublin, in: n.º 15 do Courrier internacional – Pág. 12


A Irlanda com uma das mais altas taxas de mortalidade masculina da União Europeia e a mais curta esperança de vida dos homens
? Mas isso não é um milagre, é um autêntico pesadelo!! Desigualdade de rendimentos?! Pobreza?! 16% das crianças irlandesas na miséria?! E a propaganda do “milagre” continuava!

Pois é!! Os próprios irlandeses não estavam convencidos do seu “milagre” mas o COMPROMISSO PORTUGAL teimava em impingi-lo aos coitados dos portugueses.  Neste momento o  COMPROMISSO  PORTUGAL está em eclipse e desde o Verão de 2008 que não se manifesta.


http://obliquo-era.blogspot.com/2005/07/o-milagre-ou-ser-o-pesadelo-irlands.html

Fintan O’Toole is considered Ireland’s foremost theater critic

Fintan O’Toole (born 1958) books: The Politics of Magic: The Work and Times of Tom Murphy (Dublin, Raven Arts Press, 1987); A Mass for Jesse James: A Journey Through 1980s Ireland (Raven Arts Press, 1990); Black Hole, Green Card: The Disappearance of Ireland (Dublin, New Island Books, 1994); Meanwhile Back at the Ranch: The Politics of Irish Beef (New Island Books, 1994); Macbeth & Hamlet (New Island Books, 1995); A Traitor’s Kiss: The Life of Richard Brinsley Sheridan (London, Granta Books/New York, Farrar Straus and Giroux, 1997); The Ex-Isle of Erin: Images of a Global Ireland (New Island Books, 1997); The Lie of the Land (Dublin, New Island Books/London, Verso Books/New York, W W Norton, 1998); The Irish Times Book of the Century (Dublin, Gill & MacMillan, 1999); Shakespeare is Hard, But So is Life: A Radical Guide to Shakespearean Tragedy (London, Granta Books, 2002); After The Ball ([TASC] New Island Books, 2003); Post Washington: Why America Can’t Rule the World ([with Tony Kinsella] New Island Books, 2005); White Savage: William Johnson and the Invention of America (London, Faber and Faber/New York, Farrar, Straus and Giroux, 2005); The Irish Times Book of The 1916 Rising, 2006 ([with Shane Hegarty] Gill & Macmillan, 2006).
A journalist with The Irish Times, he has worked in the US and China. He lives in Dublin.

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