Os intocáveis- Mário Crespo



Operação face Oculta

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira – se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.
Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.
O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: “O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)”. O “Senhor jornalista” provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.
Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no “no comment” a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

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6 thoughts on “Os intocáveis- Mário Crespo

  1. LIBERDADE LUSITANA

    O Sr.Crespo serve-se da liberdade de expressão para julgamentos na praça pública e desrespeito pelo voto dos portugueses.
    Pergunto-lhe:
    Porque não apresenta provas das acusações, que, sem qualquer puder nem ética jornalística, faz todos os dias, servindo-se da liberdade de expressão levada ao desrespeito pelos outros, pela sua dignidade, pelo seu bom nome.
    O Sr. fez aquela triste figura, na C. de ética, a fazer beicinho, quase a chorar, porque não o tinham deixado ´públicar uma “crónica”.
    O Sr. não teem vergonha de não ter respeito pela dignidade e bom nome de outos profissinais que ocupam cargos por direito e mérito próprios, o que não é o seu caso.
    Já há muito tempo que pela sua postura no Jornal das nove eu suspeitava que o Sr. tinha um pedregullho no sapato a respeito do PS.
    Era notório. Agora ficou claro que como não lhe deram o cargo nos EUA, e não abafaram o seu processo discipllinar o sr.usando os média queria fazer política do mais sujo que tenho visto.
    Você continua a dizer que o P. M. comprou as suas habilitaçções. Tudo foi investigado e nada foi provado.
    Tenha coragem e informe detalhadamente porque teve um processo judicial.
    Não continue a fazer as tristes figuras, que tem feito nos últimos dias, em vez de moderar um debate, entrar nele com acusações e comentárioss, como fazia a Moura Guedes.
    Tenha vergonha e aprenda a ser jornalista, mesmo depois de velho.

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  2. Deve ser o único que trabalha neste país, pois os restantes são preguiçosos, não?
    Obscuros devem ser os interesses que está a defender. Aventais? Trabalhe também e deixe as palas de lado.

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  3. amadeu monteiro

    Sr Mário Crespo
    Mário Crespo e seus convidados debatem no “plano inclinado” as dificuldades económicas do país, nomeadamente por via de uma despesa exagerada e, claro, o remédio: os funcionários públicos.

    Nunca ouvi nenhum comentário sobre os seguintes temas:

    -vencimentos dos magistrados e continuidade da sua reforma aos 60 anos mantendo nela subsidio de renda de casa (nem sujeita a impostos)

    -acordo com os professores e o aumento consequente de mais de 400 milhões de euros

    -310 autarquias municipais, mais de 3000 freguesias; a mesma estrutura politico-administrativa do século XIX, num país encurtado pelas comunicações e alterado demograficamente.

    -continuidade dos governos civis, organismos sem existência politica, mas que nem por isso deixam de ter chefes de gabinetes, assessores, secretários.

    -uma extensa e densa rede de escolas politécnicas, demasiada para o nosso, com cursos adequadas apenas aos interesses do seu corpo docente, recrutando “sem rede” alunos com mais de 23 anos para evitar fecho de cursos e mantendo uma estrutura administrativa semelhante às universidades (assessores) presidencia vice-presidencia, directores de escolas etc.

    cumprimentos

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