Dois discursos: a grandeza de quem sabe; e a soberba de quem é apenas Presidente – Baptista Bastos


O discurso do Presidente da República não teve importância nenhuma. Nem novidades nem brilho. O costume. O dr. Cavaco repetiu o que já tem dito, e as advertências que faz são as mesmas que outros economistas e preopinantes têm feito. Gostava, de uma vez por todas, esclarecer que de nada de pessoal tenho contra o senhor. Mas ele não dá azo a que mude de opinião. Quer que todos pensem como ele. E, como se sabe, é um homem que nunca se engana e raramente tem dúvidas [Cavaco dixit].

O discurso reflecte essa arrogância, essa soberba e essa notável falta de humildade e de senso. Largou umas zurzidelas menores ao Governo e a Sócrates, num português medíocre, muito apreciado pelos seus prosélitos. Dizem que é bom economista. Parece que os bons economistas não estão nada de acordo. Usa frases insípidas e ríspidas, mas não imparciais, independentes ou neutrais. Um Presidente nunca dispõe dessas virtudes. Um Presidente, neste caso o dr. Cavaco, reserva-se o direito de omitir, ser pouco claro, e de ter com a verdade relações nem sempre translúcidas.

O texto é obscuro, sinuoso, baço, desmotivador porque o conteúdo é mais tenebroso do que as críticas de Medina Carreira. Este, pelo menos sustentava as suas opiniões; além de falar um idioma de lei. Digam-me, em consciência e com toda a franqueza: que português é atraído por aquelas frases e corre, desabrido e ofegante, para salvar a pátria? Nem um. A não ser, acaso, o dr. Miguel Macedo, o único que viu um escondido fulgor, um resplandecente apelo à acção, uma cintilante chamamento no cabisbaixo documento.

Paulo Portas, esse, foi a desilusão estatelada. Interrogado por febris jornalistas, declamou, sério e assertivo: “Um discurso duro e verdadeiro.” Tenho saudades do tempo em que Paulo Portas, n’ “O Independente”, reduzia Cavaco e sua corte a subnitrato. A prosa do então jornalista, era do melhor que a Imprensa produzia. Aliás, era o que de mais vivo, mais combativo e jovem o semanário publicava. Agora, parece um senhor que, para abater as banhas, tem de ir frequentemente ao ginásio.

E as decorrências do discurso foram penosas. Os habituais comentadores do óbvio procederam, obviamente, ao que deles se esperava. Não percebem que este temor reverencial pelos vencedores e pelos candidatos a tal acabará por engoli-los. A mediocridade puxa à mediocridade, e como a mediocridade já por aí assentou fundos arraiais, a coisa está cada vez mais perigosa.

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