Otelo: Se soubesse como o país ia ficar, não fazia a Revolução


Otelo Saraiva de Carvalho ouve todos os dias populares dizerem-lhe que o que faz falta é uma nova revolução, mas, 37 anos depois, garante que, se soubesse como o país ia ficar, não teria realizado o 25 de Abril.

 
Aos 75 anos, Otelo mantém a boa disposição e fala da revolução dos cravos como se esta tivesse acontecido há dois dias.

Recorda os propósitos, enumera nomes, sabe de cor as funções de cada um dos intervenientes, é rigoroso nas memórias, embora reconheça que ainda hoje vai sabendo de contributos de anónimos que revelam, tantas décadas depois, o papel que desempenharam no golpe que deitou por terra uma ditadura de 28 anos.

Essa permanente actualização tem justificado, entre outros propósitos, a sua obra literária, como o mais recente “O dia inicial”, que conta a história do 25 de Abril “hora a hora”.

Apesar de estar associado ao movimento dos “capitães de Abril” e aceitar o papel que a história lhe atribuiu nesta revolução, Otelo não esconde algum desânimo. Ele, que se assume como um “optimista por natureza”.

“Sou um optimista por natureza, mas é muito difícil encarar o futuro com optimismo. O nosso país não tem recursos naturais e a única riqueza que tem é o seu povo”, disse, em entrevista à Agência Lusa.

Otelo lamenta as “enormes diferenças de carácter salarial” que existem na sociedade portuguesa e vai desfiando nomes de personalidades públicas, cujo vencimento o indigna.

“Não posso aceitar essas diferenças. A mim, chocam-me. Então e os outros? Os que se levantam às 05:00 para ir trabalhar na fábrica e na lavoura e chegam ao fim do mês com uma miséria de ordenado?”, questiona, sem esconder o desânimo.

Para este capitão de Abril, o que mais o desilude é “questões que considerava muito importantes no programa político do Movimento das Forças Armadas (MFA) não terem sido cumpridas”.

Uma delas, que considera “crucial”, era a criação de um sistema que elevasse rapidamente o nível social, económico e cultural de todo um povo que viveu 48 anos debaixo de uma ditadura”. “Este povo, que viveu 48 anos sob uma ditadura militar e fascista merecia mais do que dois milhões de portugueses a viverem em estado de pobreza”, adiantou.

Esses milhões, sublinhou, significa que “não foram alcançados os objectivos” do 25 de Abril.

”Nunca mais punha os pés no quartel”

Por esta, e outras razões, Otelo Saraiva de Carvalho garante que hoje em dia não faria a revolução, se soubesse que o país iria estar no estado em que está.

“Pedia a demissão de oficial do Exército, nunca mais punha os pés no quartel, pois não queria assumir esta responsabilidade”, frisou.

Otelo justifica: “O 25 de Abril é feito em termos de pensamento político, com a vontade firme de mudar a situação e desenvolver rapidamente o nível económico, social e cultural do povo. Isso não foi feito, ou feito muito lentamente”.

“Fizeram-se coisas importantes no campo da educação e da saúde, mas muito delas têm vindo a ser cortadas agora outra vez”, lamentou.

“Não teria feito o 25 de Abril se pensasse que íamos cair na situação em que estamos actualmente. Teria pedido a demissão de oficial do Exército e, se calhar, como muitos jovens têm feito actualmente, tinha ido para o estrangeiro”, concluiu.

2 thoughts on “Otelo: Se soubesse como o país ia ficar, não fazia a Revolução

  1. Tenho saudades do campo, onde cresci, das escolas onde estudei, saudades dos meus camaradas de armas, que comigo estiveram em Angola; recordo o Engenheiro Jorge Jardim e o que ele queria fazer para nos manter todos unidos e que Salazar não aceitou, por tudo isto e porque a Revolução de Abril nos conduziu a um beco sem saída, escrevi um livro intitulado Grito de uma Luta Inglória, mas como vou envelhecendo e vi hoje um dos quartéis onde estive em Angola, Lumbala, de improviso escrevi este poema:
    S A U D A D E S
    Num dia fui ao Chilombo
    na noite fui para Lumbala
    e lá chegámos sem tombo
    sem a ferida de uma bala!

    eu tinha vindo de Cazombo
    e fora a Teixeira de Sousa
    talvez guiado por um pombo
    no Cavungo vi tanta cousa!

    passei no marco vinte cinco
    junto da fronteira do Congo
    levava o pelotão com afinco
    só bebia água e não bongo!

    ai bongo um sabor da selva
    que tantas vezes eu apreciei
    ai meu Deus e lá pela relva
    ai quantas noites me deitei!

    digo-te adeus rio Zambeze
    e em ti tanta vez eu passei
    peço que minha alma reze
    aos homens que não salvei!

    Digo-te adeus Alferes Santos
    foste meu querido camarada
    e digo adeus a outros tantos
    ai que jazem na terra amada!

    e estes versos de improviso
    que eu fiz hoje lembrando
    são bocados dum meu juízo
    da alma um céu procurando!

    Eugénio dos Santos

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