A troika desautoriza Sócrates – Henrique Raposo


O documento da troika representa uma violenta humilhação de Sócrates e do PS. Para além das questões programáticas (a inclinação liberal do documento é a negação do socialismo tuga), convém notar que a troika desautorizou a última jogada de Sócrates, a saber: o primeiro-ministro dizia que o PEC IV era suficiente e que, por isso, o derrube do governo tinha sido inútil. Ora, a troika negou esta falácia de Sócrates: o PEC IV não era suficiente. Longe disso. Era pouco claro na parte da despesa e muito rudimentar na agenda para o crescimento. Portanto, devemos um agradecimento a quem derrubou o governo.

Depois, parece-me que os membros da troika sentiram a necessidade de criticar – mesmo que indirectamente – a desonestidade de Sócrates. Se bem se lembram, o nosso primeiro-ministro disse ao país que este era um “bom acordo” e teve o descaramento de fazer uma declaração com base no que não estava no acordo. Para percebermos o incómodo dos membros da troika, basta ler este pedaço da entrevista de António Barreto ao i:

“Quando (Sócrates) anunciou os resultados das negociações fez uma coisa extraordinária que foi dizer o que não está no acordo e não anunciou o que estava. Parece mesmo que há sinais de que a opinião política europeia ficou muito desagradada”.

As declarações dos membros da troika revelaram – precisamente – este incómodo europeu ante o populismo de Sócrates. Jurgen Kroger (da Comissão) disse o seguinte: “mas vou ser honesto com o povo português – isto não é fácil”. O mighty Poul Thomsen (FMI) foi ainda mais vigoroso no raspanete indirecto a Sócrates: “vamos ser claros – o plano é muito intenso e exigente” (Negócios, 6 Maio, p. 8). Parece inacreditável, mas é a verdade é que os portugueses receberam honestidade das mãos de estrangeiros e não das mãos do seu primeiro-ministro.

PS: a falta de vergonha de Sócrates chegou a incomodar muitos socialistas, inclusive no governo: “houve quem se tivesse sentido desconfortável com o discurso ostensivamente de campanha eleitoral numa altura em que o interesse nacional pediria outro decoro (…) preferiam ter visto do seu secretário-geral e primeiro-ministro uma atitude de maior elevação” (ver Expresso de sábado, p. 10)

2 thoughts on “A troika desautoriza Sócrates – Henrique Raposo

  1. Miguel Coelho

    Presenteia-se aqui mais um exemplar de esquecimento conveniente. Toda a gente que ouviu em directo a declaração de Sócrates ouviu-o dizer que era um bom acordo, mas que de seguida disse “naturalmente não há programas de ajuda financeira que não sejam exigentes. Isso não existe” Ainda nem trinta segundos depois de começar vocês á se esqueceram.

    Depois tudo bem que isto é um blog, mas não acha fraca a argumentação do diz que disse? “Parece mesmo que há sinais…” Parece mesmo? É nisso que se baseia? Em alguém que disse que parece que?

    Mais, o raspanete a Sócrates é dizer que o plano é vigoroso e exigente? É a primeira vez que vejo um raspanete em concordância com o castigado.

    “houve quem se tivesse sentido desconfortável com o discurso ostensivamente de campanha eleitoral numa altura em que o interesse nacional pediria outro decoro” Mais uma vez. Diz que disse. Houve quem, mas não se sabe quem, pelo menos pelo excerto que publicou. Mais uma vez, a manipulação está no diz que disse.

    Ideologicamente o documento assinado com a troika é um desvio ideológico da esquerda socialista. E qual era a outra opção?
    Posso conceber essa ideia de que só se falou no que não estava no acordo. Mas 90% dos portugueses estavam mais preocupados em saber se perderiam os 13 e 14 mês do que no resto.

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