INE revela mais 55 mil desempregados. Taxa de 13% vai ser atingida mais cedo que o previsto


“Portugal enfrenta uma bancarrota social”

O coordenador da Comissão Política do Bloco de Esquerda afirmou esta quarta-feira, após um encontro com dirigentes da CGTP, que o crescimento da taxa de desemprego é resultado de uma “economia falhada”.

 Francisco Louçã lembrou que, se tivermos em conta o desemprego real, “estaremos próximo de um milhão” de desempregados e que o memorando do resgate externo a Portugal aponta para um aumento de 150 mil novos desempregados e para a redução do número de beneficiários do subsídio de desemprego

 Perante este panorama, Portugal enfrenta, segundo Louçã, uma verdadeira “bancarrota social”.

A realidade do desemprego em Portugal foi ontem revista – e aumentada. No final do primeiro trimestre deste ano havia cerca de 689 mil desempregados oficiais no país, mais 71 mil que no último trimestre de 2011, mostram os dados ontem divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Cerca de três quartos deste agravamento devem-se a uma mudança no método de contabilização do INE e os restantes 20% à deterioração significativa da economia. Para os observadores do mercado de emprego estes dois efeitos desactualizam por completo a previsão do governo de 13% para o desemprego em 2013 – a partir da taxa de 12,4% registada no primeiro trimestre (ainda antes do programa de ajustamento da troika). A tendência será para piorar para níveis nunca vistos no país.

“Independentemente da mudança de método e dos problemas em comparar números anteriores, a conclusão mantém-se: a degradação do mercado de trabalho deverá piorar com a esperada contracção da economia”, aponta Paula Carvalho, economista do Banco BPI, que admite rever a previsão de 12,1% para este ano. O Fundo Monetário Internacional, que participou na intervenção externa em Portugal, prevê uma recessão de 2% este ano e de igual intensidade em 2012, devido à dureza do ajustamento orçamental que Portugal terá de fazer e às dificuldades de financiamento de toda a economia.

“A taxa de desemprego está a subir aceleradamente. As políticas que estão a ser aplicadas podem projectar o país para as taxas de desemprego próximas dos 15%”, antecipou ontem Carvalho da Silva, líder da central sindical CGTP.

A recessão começou no início do ano e os seus efeitos já se fazem notar. O boletim do INE indica que, descontando o efeito da mudança de metodologia, o desemprego no primeiro trimestre – comparável com dados anteriores – subiu de 11,1% no final do ano passado para 11,4% até Março (mais 15 mil desempregados).

Mas a grande diferença veio mesmo da mudança na forma de contabilizar (ver texto ao lado), que somou 55 600 desempregados ao contingente anteriormente conhecido. Apesar de inviabilizar comparações entre séries de dados do passado, esta mudança não impossibilita uma identificação das grandes tendências de médio e longo prazo no mercado de trabalho português, como referiu aliás a presidente do conselho directivo do INE, Alda de Caetano Carvalho. Para o INE, a percepção do fenómeno do desemprego é agora mais fina.

quase Um milhão de pessoas E a tendência revelada por essa maior percepção é preocupante do ponto de vista social. Portugal, que no início da década passada chegou a ter uma taxa de desemprego inferior a 4% da população activa, caminha agora para valores superiores a 13% – isto apesar de o país estar a passar pela segunda maior vaga de emigração da sua história (700 mil saíram do país nos últimos dez anos, segundo o economista Álvaro Santos Pereira) e de o número de desempregados inactivos (disponíveis para trabalhar ou desencorajados) já superar os 200 mil.

Uma soma (grosso modo) das pessoas desempregadas e das inactivas – conceitos relacionados, mas distintos (os inactivos desistem de procurar e saem do mercado) – revela aliás que haverá perto de 900 mil pessoas em Portugal que querem um emprego mas não o encontram (uma parte por determinar está na economia paralela).

A estes haverá ainda que somar as pessoas que frequentam programas ocupacionais do Instituto do Emprego e Formação Profissional (cerca de 50 mil), que no novo método do INE passaram a ser contabilizados como empregados. Um indicador total deste tipo, ainda que grosseiro, permite ter uma ideia mais abrangente do problema – permite chegar a um número próximo de um milhão de pessoas afectadas. “É a maior fractura social que Portugal já conheceu”, apontou ontem Paulo Portas, líder do CDS, referindo-se aos desempregados.

Esta fractura será difícil de fechar. Não é fácil atrair os inactivos de volta para o mercado de trabalho – muito menos nas condições actuais – e mais de 50% do desemprego é de longa duração, ou seja, superior a um ano. E, ao contrário do que se pensa, as pessoas que recebem subsídio de desemprego são uma minoria (ver caixa).

Sangria nos jovens O efeito combinado da mudança metodológica e da recessão económica fez-se sentir mais no desemprego jovem (15 e 24 anos), que apanhou mais 28 mil pessoas no primeiro trimestre. A taxa de desemprego jovem é agora de 28,5% – um número maior e significativo, que muda de 15% para 18% o peso deste escalão etário (que vale apenas 8% da população activa total) no desemprego nacional. Durante as recessões o ritmo de crescimento do desemprego jovem é tipicamente o dobro da taxa nacional, apontam diversos estudos económicos – no caso de Portugal este ritmo tem sido maior (2,3 vezes superior desde o início da crise, em 2008). O agravamento estendeu-se aos restantes escalões etários (ver gráfico), embora em menor escala.

O problema é transversal a todo o país, mas as regiões Norte, Lisboa, Alentejo e Madeira têm taxas superiores à média nacional. O Algarve bate o recorde, com 17% de desemprego. “São números dramaticamente históricos, já que não há registo de situação semelhante no Algarve”, disse à Lusa o sindicalista António Goulart, que prevê que “as expectativas sejam piores para o próximo Inverno”. Com M. B. S.

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