Reflexões sobre a derrota do Bloco de Esquerda


por Miguel Madeira

Tem surgido várias explicações sobre a derrota do BE – muito radical?, muito moderado?, as duas coisas ao mesmo tempo?, pouco aberto aos movimentos sociais?, etc.  Algo paradoxalmente, acho que todas essas explicações estão certas, e vou tentar explicar porquê.


Mas antes disso vou fazer dois apontamentos sobre os resultados do Bloco que têm passado despercebidos:

Em primeiro lugar, desde a fundação que o Bloco é considerado a “esquerda caviar”, o partido “dos meninos de boas famílias que vão fazer manifestações”, e continuam a ver-se traços disso em artigos como este da Helena Matos ou este do Pedro Tadeu (que o Luis Rainha refere aqui). Mas já alguém se deu ao trabalho de ver onde o BE teve as suas maiores votações? Marinha Grande (9,77%), Portimão (9,63%), Lagos (9,47%), Vila Real de Santo António (9,44%), Lagoa (9,27%), Olhão (9,03%)… Os as freguesias com mais votos – 14,74% em Rabo de Peixe / Ribeira Grande, 13,48% no Parchal / Lagoa (uma antiga aldeia de pescadores e operários conserveiros; actualmente consiste sobretudo numa urbanização construída por um cooperativa de habitação económica, funcionando como um “dormitório”)… Apesar da tradição piscatória de várias, não são propriamente terras de “caviar” (poderá-se contra-argumentar que Portimão, Lagos e Lagoa até podem ser consideradas terras relativamente prósperas, mas a análise da votação por freguesias indica que os resultados mais altos do BE foram nas freguesias mais “proletárias”).

Outro aspecto é a grande variação de resultados do BE de sitio para sitio, mesmo em localidades próximas e socialmente parecidas – qual é a grande diferença entre Baleizão (11,86%) e o resto do concelho de Beja (5,72%)? Ou mesmo entre a Mexilhoeira Grande / Portimão (10,09%) e Odiáxere / Lagos (7,22%), duas freguesias contiguas e muito parecidas? Uma possivel teoria poderia ser a existência ou não de militantes activos nas localidades com mais votos (algumas pessoas iriam votar não apenas por causa dos “políticos” que aparecem na televisão, mas também por causa do militante de base que eles conhecem pessoalmente) – é uma ideia tentadora, mas impossível de testar na prática (mesmo que se concluísse que o BE tinha mais votos nas freguesias em que tem grupos de militantes, penso que seria impossível determinar o sentido da relação causa-efeito).

Mas, agora, vamos à minha teoria sobre as causas da derrota.

Imagino 3 (ou melhor, 3 e meia) estratégias possíveis para um partido à esquerda do PS:

1 – o “verdadeiro PS”: defender aquilo que nas décadas anteriores era defendido pelos partidos da Internacional Socialista no mundo ocidental, e que está actualmente a ser desmantelado, tanto pelos “socialistas” como pela direita – altos impostos sobre os ricos, subsídios aos pobres, serviços públicos gratuitos (SNS, escola pública, etc) e eventualmente uma ou duas nacionalizações. Na minha opinião, tem sido largamente esta a linha do BE

1a – uma variante desta opção é a defesa da “social-democracia mundial” (ou pelo menos europeia) contra o “Estado Social num só país”: defender que numa economia integrada os mecanismo de regulamentação económica e de protecção social também têm que ser integrados, até para evitar a “corrida para o fundo“. Muitas posições do BE (como a defesa da “europeização” de parte da dívida dos PIGS ou da harmonização fiscal na UE) podem enquadrar-se aqui

2 – “estatismo clássico”: defender uma estatização substancial da economia. Poderá haver quem ache que o programa de 2009 do BE aproximou-se disso (embora as nacionalização lá propostas não fossem mais radicais do que partidos de centro-esquerda, como os Trabalhistas ingleses ou os Socialistas franceses, fizerem em tempos)

3 – ser o partido do “poder popular” – erguer bandeiras como a democracia participativa/directa (p.ex., o orçamento participativo), a participação dos trabalhadores na gestão da produção, a defesa de formas de economia comunitária não-capitalista e não-estatista, etc. Realmente, antes de 1989, os partidos de “extrema-esquerda” que se vieram a integrar no BE tinham, em certo grau, uma tradição de defesa do “poder popular de base” e de que esse seria o “verdadeiro socialismo”, por contraponto ao socialismo burocrático da URSS e do PCP. No entanto tal posição tem estado largamente ausente da linha actual do BE

O problema da “linha 1” é que a margem para a diferenciação face ao PS acaba por ser muito estreita, correndo-se facilmente o risco de cair numa de duas situações – ou o partido aparecer como um apêndice do PS (o “caso Alegre”?), ou então, pelo contrário, em qualquer questão fazer ponto de honra em marcar a diferença face ao PS, dando a muita gente a impressão de ser um partido do “contra pelo contra” (a linha seguida após as presidenciais?). Por isso é que digo que tanto os que dizem que o BE foi muito colado ao PS como os que dizem que foi muito sectário acabam por ter razão – na minha opinião, a estratégia social-democrata e excessivamente parlamentar não é a melhor; mas, a partir do momento em que se adopta essa estratégia, a táctica mais lógica e coerente seria mesmo a da “amizade colorida” com o PS, aliando-se numa votações, divergindo noutras, mas sem o hostilizar por principio. De certa forma, parece-me que a estratégia recente do BE foi uma combinação de oportunismo estratégico e de sectarismo táctico (ou talvez isso seja o resultado de compromissos a nível da direcção, em que a busca de um equilíbrio entre várias propostas estratégicas lógicas e coerentes acaba por conduzir a uma linha errática e incoerente).

A linha 1a, se calhar até é tecnicamente correcta (pelo menos de acordo com grande parte da teoria económica convencional), mas tem o problema que não é uma proposta politica para Portugal, mas sim para a Europa (mais sobre isso mais à frente).

As linhas 2 e 3 têm o problema de qualquer proposta de romper com (em vez de fazer uns ajustes ao) sistema: a maior parte das pessoas reagem com “isso é impossível” (para a linha 3), “viu-se o que isso deu” (para a 2) e afins.

Deixando de lado a linha 2 (até porque esse nicho já está largamente ocupado), parece-me que o melhor caminho para defender a linha 3 (a tal do “poder popular”, mas podem dar-lhe outro nome se não gostarem deste…) é o da “aprendizagem pela acção” – se grupos de cidadãos se mobilizarem e organizarem por uma causa especifica (e sobretudo se conseguirem ganhar a sua luta…), vão pouco a pouco adquirindo o hábito de tentarem influenciar directamente as decisões políticas, em vez de se limitarem a votar de “x” em “x” anos (x<=4).

Assim, um partido que tivesse o “poder popular” como “programa máximo” deveria seguir como estratégia principal apoiar o desenvolvimento de movimentos sociais (novos e velhos) “de base” (reconheço que há um perigo nesta estratégia – a fronteira entre “apoiar o desenvolvimento” e “telecomandar” pode ser bastante porosa).

Pelo contrário, a actividade do Bloco de Esquerda nos últimos anos tem tido o Parlamento como eixo central, e mesmo o seu funcionamento interno tem privilegiado o aspecto “partido de deputados e de eleitores” em detrimento do de “partido de militantes/aderentes/activistas”. Aliás, as várias alterações organizacionais que o BE tem tido (formais e informais) tem sido no sentido de, dentro do partido, reforçar a “democracia burguesa” face à “democracia participativa” (veja-se a substituição da direcção colegial por um coordenador, o fim da rotatividade dos deputados, o reforço da Mesa Nacional face às Assembleias Distritais – plenárias – na elaboração das listas de candidatos, etc.).

Já agora, num momento de descredibilização cada vez maior da democracia representativa, é ao mesmo tempo triste e irónico ver tanto o PCP como o BE transformados nos seus maiores apologistas – nos períodos eleitorais, o mais normal é ouvir tanto comunistas como bloquistas dizendo algo como “as pessoas estão convencidas que são todos iguais; temos que as fazer compreender que não são todos iguais”; por outras palavras, “o sistema é bom, o problema são as pessoas que vocês elegem; deveriam eleger outras”, uma posição que provavelmente muitos pensadores presentes nas bibliotecas das sedes dos dois partidos chamariam de “idealista”. A verdade é que, se os políticos parecem ser “todos iguais”, isso provavelmente significa que há algo no sistema que os faz ser “todos iguais” quando chegam ao poder, e portanto o que é preciso é mudar o sistema (por outras palavras, a melhor resposta à questão “será que se o Louçã fosse para lá faria melhor?” seria “o que é preciso é acabar com o «lá», com esse «lá» em que uns decidem a nossa vida, e criar uma nova sociedade em que as decisões sejam tomadas «cá», pelos que são afectados por elas”).

Umas notas finais:

  • É possivel que a “aberração” tenham sido os resultados de 2009 – nas eleições para o PE (ideais para mandar “cartões” ao governo) o Bloco teve uma elevada votação (dos quais arrisco-me a dizer que muitos terão sido “votos de protesto”), e tal deu “embalo” para as legislativas, poucos meses depois.
  • Há muita gente que vota BE (e CDU) não porque os queiram no governo, mas simplesmente como uma forma de dizer ao PS “queremos que governem à esquerda”; como é evidente, este mecanismo só funciona quando essas pessoas acham que o PS vai ganhar – se acham que o PSD vai ganhar, preferirão reforçar o PS. Atenção que isto não é o famoso “voto útil” – o “voto útil” é alguém que se identifica ideologicamente com o BE ou com o PCP votar PS para travar a direita; o que estou a falar é de alguém que se identifica ideologicamente com o PS votar no BE ou na CDU para mandar um sinal à direcção do PS.
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2 thoughts on “Reflexões sobre a derrota do Bloco de Esquerda

  1. Faro de Pulhas

    Em termos eleitorais penso que o BE sofre de complexos de esquerda-direita.
    Tenho para mim que há muito as políticas implementadas pelo PS são mais direitistas que as do PS/PSD.
    O BE deve definitivamente considerar o PS um partido de direita pelas posições tomadas, nomeadamente : contratos a prazo- recibos verdes-lay off-alteração das leis de trabalho com liberalização de despedimentos.
    Enquanto o PSD/CDS falam, dizem que é preciso mudar, blá, blá… o PS leva à prática o que essa direita exige.
    Definitivamente o BE deve colocar o PS como partido de direita.
    Depois, a defesa irracional de emigrantes que vêm parasitar os nossos recursos não pode ser considerado uma política de esquerda.
    A esquerda defende o Estado Social, mas é diferente de defender parasitismo. Assistimos diariamente à vinda de ciganos romenos que juntando-se aos nossos, nunca pensaram em trabalhar, mas apenas em viver de subsídios.
    O BE não pode defender isto! Que dirá um trabalhador, um jovem licenciado no 1º emprego que ganha 500 ou 600 euros por 12 horas de trabalho, e ao lado vê uma família romena (fábrica de filharada) receber vales de RSI de mais de 1200 euros.(nao li ou ouvi… VI).
    Claro que a dialéctica do BE de defender emigrantes a todo o preço provoca revolta nas classes trabalhadoras.
    Não se trata de racismo. O povo português é tolerante e acolhe bem emigrantes que se integrem no “nosso viver”. Não tolera é parasitismo quando ele mesmo vive com dificuldades financeiras graves.
    Depois a “convivência” com o PS, engolindo até sapos apoiando o Manuel Alegre caiu mal ao eleitorado do BE.
    O Manuel Alegre sempre foi um indivíduo ligado ao “sistema” e embora mandando umas farpas, nunca se demarcou do P.S.
    Os votantes do BE não vão em negociatas e nessa altura reviram-se mais no discurso (falso, mas eficaz) do F.Nobre do que no do Manuel Alegre com o P.S. à tiracolo.
    A juntar à questão dos emigrantes, há todos os temas marginais que o povo não vê com bons olhos: casamentos homossexuais, drogas, aborto, etc…
    O BE pode e deve ter no seu programa essas posições, mas ao arvorar-se a todo o momento no principal defensor dessas causas, colhe o repúdio da maioria do povo.
    Penso que a posição correcta é a de menor envolvimento político nessas causas minoritárias.
    Para finalizar, a recusa em conversar com a Troika foi um definitivo tiro no pé, e provocou a ideia de irresponsabilidade do BE.
    Numa altura em que não havia dinheiro para pagar ordenados e pensões, penso que a posição correcta seria ir mesmo conversar com os homens.
    Muitas vezes é necessário dar um passo atrás para posteriormente se darem dois para diante.
    A posição a tomar deveria ser de denúncia de todas as negociatas feitas pelo PS/PSD ao longo dos anos e que levaram o País ao estado em que se encontra.
    Evidentemente que o BE não deveria assinar qualquer pacto, e disso deveria dar conta à saída da reunião, justificando os motivos (perda da soberania nacional, elevadas taxas, de juro, alteração de leis laborais, etc)
    Assim, demonstrou uma posição de irresponsabilidade política ao negar a solução no imediato.
    As propostas do BE a médio e longo prazo ficaram ofuscadas pela urgência da situação.
    Tendo já votado BE várias vezes, nas últimas eleições por todas essas razões, mudei o meu sentido de voto.
    O BE deve fazer uma profunda reflexão!
    Cumprimentos

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