Imprensa internacional arrasa discurso de Cavaco


Portugal votou, Cavaco falou e o mundo reagiu. Depois da imprensa e dos comentadores nacionais, também lá fora se multiplicam as reações ao discurso do Presidente. Das mais diversas proveniências, da esquerda à direita, o Presidente da República é trucidado por boa parte da imprensa internacional.

À cabeça das publicações mais críticas encontra-se o conceituado diário britânico The Telegraph, primeiro com um artigo da autoria de Ambrose Evans-Pritchard, que começa por conceder: “O presidente Cavaco Silva pode ter razão ao calcular que um Governo socialista em aliança com os comunistas precipitaria um confronto de primeira grandeza com os mandarins da austeridade da UE”.O “monstro” que Bruxelas criou
Aquilo que classifica como “o grande plano de reflação keynesiana do sr. Costa”, acrescenta Evans-Pritchard, seria “inteiramente incompatível” com os mandamentos austeritários vindos de Bruxelas.

Acontece que, ainda segundo Evans-Pritchard, “o demencial tratado orçamental obriga Portugal a cortar a dívida até 60 por cento do PIB nos próximos 20 anos numa permanente armadilha de austeridade, e a fazê-lo exactamente da mesma forma como toda a Europa do sul está a tentar fazê-lo, e tudo sobre um pano de fundo de poderosas forças deflacionárias à escala mundial”.

E comenta: “A estratégia de combater o massivo fardo da dívida do país através de um permanente apertar do cinto é em larga medida auto-destrutiva, visto que o efeito de um PIB nominalmente estagnado agrava a dinâmica da crise”.

O articulista considera que “Portugal vai precisar de uma reestruturação da dívida quando vier o próximo abanão global”. E lembra que “não há qualquer hipótese de a Alemanha concordar com uma união fiscal europeia em tempo útil para impedir que isto aconteça”.

À vista desta análise, não surpreende a conclusão política: “O sr. Cavaco Silva está realmente a usar o cargo para impor uma agenda política reaccionária, no interesse dos credores e do establishment da zona euro e travestindo tudo isto com assinalával Chutzpah [nota do tradutor: descaramento] como defesa da democracia”.

A concluir, Evans-Pritchard nota que “os conservadores portugueses e os seus media comportam-se como se a esquerda não tivesse direito legítimo a assumir o poder, e devesse ser mantida ao largo por todos os meios. Estes reflexos são conhecidos – e arrepiantes – para qualquer pessoa familiarizada com a História ibérica do século XX, ou da América Latina”. E mais adiante: “Bruxelas criou realmente um monstro”.Cavaco inventou “um papão”
Também no mesmo The Telegraph, um outro artigo de Mehreen Khan nota que o discurso de Cavaco excluiu do poder a aliança de esquerda e, portanto, “não admira que esta posição tenha reforçado a esquerda radical no país”.

A autora lembra que, “até à eleição deste mês, Portugal era considerado excepcional na Europa mediterrânica pela evidente inexistência de um movimento populista anti-austeridade nos moldes de Podemos em Espanha, ou com a popularidade do Syriza na Grécia”.

“O seu obediente Governo era considerado ‘mais troika do que a troika’ pela sua zelosa aplicação dos cortes draconianos na despesa e pelos aumentos de impostos num afã de agradar aos credores”.“Ironicamente, muitos observadores notam que a aliança de esquerda do sr. Costa não é de modo nenhum o papão que foi pintado pelo presidente Cavaco Silva”

Agora, que a crise está declarada, sucede que, “ao contrário dos governos tecnocráticos na Itália e na Grécia, Bruxelas não tem as suas impressões digitais sobre a arma em Portugal”. Isto porque, explica, a actual crise “é inteiramente fabricada pelas elites políticas [portuguesas]”.

Entretanto, trata-se de uma crise que “tem profundas consequências para a democracia no resto da zona euro”, como parece denunciar a nervosa reação do presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy, ao comentar que “não gosta” do que vê em Portugal.

A concluir, afirma Mehreen Khan que, “ironicamente, muitos observadores notam que a aliança de esquerda do sr. Costa não é de modo nenhum o papão que foi pintado pelo presidente Cavaco Silva. Mas a intransigência dele bem poderá desencadear precisamente o tipo de forças anti-UE que supostamente lhe tiram o sono”.“Jogo perigoso”
Na versão francófona do diário multinacional La Tribune, Romaric Godin, comenta que “o cálculo do presidente da República pode parecer de vistas curtas”, mas, na verdade, “visa ganhar tempo para permitir uma dissolução do parlamento logo que seja possível, ou seja, seis meses depois da eleição presidencial prevista para janeiro”.

Esta atitude mostra que “a direita portuguesa tenta contornar a votação de 4 de outubro instrumentalizando o euro e a UE. Ao fazer da moção de rejeição um voto por ou contra o euro, o inquilino do Palácio de Belém tenta dar à direita a maioria que as urnas não lhe deram”. E este jogo, “a médio prazo, parece muito perigoso”.O presidente menos querido de sempre
No diário convservador alemão Tagesspiegel, Elisa Simantke considera que “uma coisa é certa: seja como for que a luta pelo poder agora desencadeada em Portugal venha a resolver-se, o presidente Aníbal Cavaco Silva só pode perder. Já hoje o septuagenário de 76 anos é o presidente da República menos estimado que Portugal alguma vez teve”. E contrasta esta cordial detestação do presidente com as taxas de popularidade que, considera, tinha nos anos 80 e 90 o Cavaco primeiro-ministro.

Entre os motivos para a antipatia por Cavaco Silva, cita a autora o modo “como ele fundamentou a sua decisão [de reconduzir Passos Coelho]. Disse ele que um Governo em aliança com forças anti-troika põe em perigo a ‘segurança nacional’, quando é de importância vital a colaboração com os investidores”.
Um ataque à democracia
Na imprensa norte-americana, destaca-se o artigo de Daniel Marans, no Huffington Post, ao fazer notar como “o dilema colocado na ordem do dia em Portugal mostra como as imposições económicas da zona euro minam o empenhamento na democracia”.

E cita o historiador António Costa Pinto, apoiante declarado da coligação encabeçada por Passos Coelho, que no entanto declarou àquele jornal norte-americano o seu repúdio pela tentativa de Cavaco Silva para ostracizar os partidos de esquerda.

Segundo Costa Pinto, “o presidente não pode excluir da democracia portuguesa dois partidos – o Bloco de Esquerda e dos comunistas – que representam um milhão de eleitores e 20 por cento do eleitorado português”.
“Golpe de Estado silencioso”
Um golpe de Estado. Silencioso, mas um golpe de Estado. É a expressão usada pelo economista Jacques Sapir num artigo de opinião publicado no site da revista francesa Marianne. Sapir censura a decisão de Cavaco Silva mas concentra críticas na “antidemocrática” União Europeia.

O economista começa por defender que é falsa a ideia de que a coligação Portugal à Frente venceu as eleições, uma vez que “uma maioria dos eleitores portugueses votou contra as medidas de austeridade”. “Qualquer outra decisão assemelha-se a um ato inconstitucional, um ‘golpe de Estado’”.

O economista aponta que o Presidente da República “não tem o poder de interpretar as intenções futuras para se opor à vontade dos eleitores” e que, a ser apresentado um acordo para um executivo de esquerda, Cavaco “deve dar-lhe uma oportunidade”.

“Qualquer outra decisão assemelha-se a um ato inconstitucional, um ‘golpe de Estado’”, aponta Sapir.

O ensaísta justifica a decisão de Cavaco Silva em rejeitar uma coligação de esquerda pelo receio de entrar em “confronto” com a União Europeia e o Eurogrupo. Jacques Sapir compara mesmo a atual situação ao impasse grego que marcou o último ano e culminou com a assinatura do terceiro resgate.

O economista rejeita que Portugal seja a prova de que a austeridade resulta, apontando para o crescimento “muito precário” da economia e para os números do défice, da dívida pública e da taxa de desemprego. A culpa, defende Sapir, é da pouca produtividade do trabalho, cimentada numa mão-de-obra “mal ou pouco qualificada” e na falta de investimento.

“Nas décadas de 1980 e 1990, Portugal conseguiu acomodar a sua baixa produtividade com a desvalorização da moeda. Desde 1999 e com a entrada no euro, isto é impossível”, ressalva, voltando a apontar armas à moeda e às instituições europeias.

“A responsabilidade do euro na situação económica de Portugal é inegável. Mas a responsabilidade das autoridades europeias no caos económica e político que poderá ocorrer é igualmente certa”.
A morna defesa de Cavaco no NYT
A única e muito relativa excepção aqui recenseada para este tom condenatório na imprensa internacional é o relato de Raphael Minder no New York Times, ao afirmar que António Costa está a aplicar “uma estratégia de alto risco” que poderia levar o PS a “perder ainda mais votos se outras eleições forem convocadas em breve”.

Além disso, o articulista daquele diário norte-americano subscreve a expectativa patenteada pelo presidente da República quanto a uma eventual rebelião dos deputados do PS, ao citar a opinião de um analista do Eurasia Group, Federico Santi, segundo o qual “quadros mais moderados [do PS] estão cada vez menos à vontade com a orientação que Costa tomou”.

O jornalista do New York Times reconhece, contudo, que esta apreciação de Santi foi anterior ao discurso de Cavaco – o que poderá fazer toda a diferença.

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