Defender os corruptos e manipuladores, a verdade ele nem a defende.


Proença de Carvalho defende economista suspeito de manipular dívida pública

Proença de Carvalho defende economista suspeito de manipular dívida pública

Peter Boone vai contratar advogado para se defender das suspeitas de manipulação de mercado nas Obrigações de Tesouro de Portugal. E já tem agência de comunicação

Francisco Proença de Carvalho, da sociedade Uría, Proença de Carvalho & Associados, será o advogado de Peter Boone, o economista que foi constituído arguido por suspeitas de manipulação de mercado em 2010, apurou o Expresso. Naquele ano, Boone publicou diversos artigos prevendo o agravamento das condições da dívida pública portuguesa. O Ministério Público português, que constituiu o economista como arguido, diz ele que o fez de molde a beneficiar daquilo que, anunciando, ajudou a provocar.

Avança assim a defesa do economista que, de um dia para o outro, foi notícia em todos os jorais portugueses. Além de estar a ser assessorado por Francisco Proença de Carvalho, Peter Boone contratou esta sexta-feira uma agência de comunicação, para gerir as relações com a comunicação social.

As suspeitas

A informação foi revelada esta quinta-feira à noite em comunicado da Procuradoria-Geral da Distrital de Lisboa: “O Ministério Público requereu o julgamento de um arguido de nacionalidade canadiana e residente em Londres, pela prática do crime de manipulação de mercado, tendo por objeto a desvalorização das obrigações do tesouro portuguesas”. “Trata-se de acusação por crime com contornos inéditos”, que atenta “contra as regras da livre concorrência e a confiança do mercado”, declara a Procuradoria.

Boone era administrador de uma consultora de investimento e de gestão de carteiras ligada a um fundo de investimento especulativo (“hedge fund”). E “tinha interesse na desvalorização da dívida portuguesa e na subida dos yields”. “Com esta finalidade”, diz a Procuradoria, Peter Boone “publicou vários artigos em blogs, sendo um deles associado a um jornal de referência mundial, no período compreendido entre Fevereiro e Abril de 2010.” Ora, numa negociação da dívida soberana portuguesa, esse fundo obteve “uma mais valia de cerca de 819.099,82 euros através da desvalorização dos títulos de tesouro respetivos.”

O artigo em causa, um entre vários, foi publicado originalmente no blog Economix, do “New York Times”, e teve ecos em diversos jornais no mundo, incluindo em Portugal. “O próximo problema global: Portugal” foi publicado por Peter Boone, investigador da London School of Economics, e Simon Johnson, antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

Comparando Portugal com a Grécia, que estava então à beira do seu primeiro resgate, o artigo postulava: “Ambos os países estão, economicamente, à beira da falência, e cada um parece muito mais arriscado do que parecia a Argentina em 2001, quando entrou em incumprimento.” E prenunciava: “Os políticos portugueses nada mais podem fazer do que esperar que a situação piore e, nessa altura, exigir o seu pacote de resgate também.”

Um ano depois, em abril de 2011, Portugal pediria de facto um resgate financeiro. Mas a questão agora em apreço não é se este artigo, entre outros, estava certo. Mas se um dos seus autores o usou para lucrar.

“Os artigos de opinião tiveram impacto nas yields da dívida pública portuguesa”, diz a Procuradoria Geral Portuguesa, “influenciaram os investidores, até porque o arguido era um académico prestigiado, doutorado em economia pela universidade de Harvard e os artigos foram publicados em contexto de grande instabilidade financeira, de receio de contágio com a dívida grega, estando os mercados em situação de elevada suscetibilidade.”

 

MANIPULADOR. Peter Boone, o economista que, ao escrever em blogues e no “New York Times” sobre a dívida portuguesa, terá ganho rios de dinheiro

A defesa

A meio da tarde de sexta-feira, um comunicado em nome de Peter Boone veio afirmar que ele “não manipulou o mercado nem o seu blogue está ligado a qualquer estratégia de negociação”. “O Dr. Peter Boone nega ter, em qualquer momento, praticado atos dessa natureza e irá defender-se veementemente desta acusação” de manipulação de mercado, afirma o comunicado, que frisa que o economista “cooperou com as autoridades portuguesas desde o início das investigações e continuará a fazê-lo agora que o caso vai a julgamento”.

“No decurso de uma investigação que leva já cinco anos, o Dr. Boone deslocou-se voluntariamente a Portugal para ser ouvido e para prestar as informações necessárias à correção dos vários erros cometidos e teorias alegadas pelo Ministério Público”, prossegue o comunicado.

“É inconcebível que as flutuações no preço das obrigações do tesouro português possam ser atribuídas aos blogues do Dr. Boone. De resto, as preocupações quanto às finanças públicas portuguesas expressas nesse blogue eram também partilhadas e publicadas por um vasto número de comentadores de primeira linha”, adita o comunicado.

Lembrando que Peter Boone publicou artigos naquela altura sobre diversos países sob stress, o comunicado inclui uma declaração do economista Simon Johnson, coautor do blogue: “Trabalho com o Peter Boone há mais de 20 anos. O Peter é honesto, digno de confiança e reputado por membros de Governos, académicos e jornalistas do mundo inteiro. Esta acusação de manipulação do mercado através de um artigo que escrevemos juntos é ridícula.”

“Expressar opiniões sobre assuntos de finanças públicas não só não constitui um crime como é um elemento essencial de uma sociedade democrática. Esta acusação representa um ataque a esses valores e por isso será contestada”, reage ainda Peter Boone. Que conclui com um apelo: “Confiamos que as autoridades portuguesas irão reconsiderar os factos e determinar que este caso não deve chegar a julgamento.”

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