Costa convence PS e aproxima-se de Bruxelas antes de duelo com Assis


O documento aprovado, que inclui mais de 70 medidas negociadas com BE e PCP, tem metas do défice e da dívida melhoradas

António Costa tem hoje duelo marcado com Francisco Assis na comissão política do PS, mas ontem conseguiu agarrar o partido no órgão máximo entre congressos. O secretário-geral socialista viu o programa de governo – que incluiu mais de 70 medidas negociadas com PCP, Bloco e PEV – ser aprovado quase sem oposição. E ainda exibiu um documento que se aproxima das metas de Bruxelas: défice sempre abaixo dos 3% e queda mais rápida da dívida.

Se as metas inscritas forem cumpridas, a Europa e a zona euro não têm razões para temer um executivo de António Costa. Depois de os socialistas chegarem a acordo com o PCP, o Bloco de Esquerda e o PEV, as metas orçamentais melhoraram face ao programa eleitoral.

Desde logo, com o PS o défice desce abaixo do previsto antes das eleições em três dos quatro anos da legislatura. A previsão para o défice de 2016 era de 3%, agora é de apenas 2,8%. Na dívida, as melhorias também são claras, com reduções superiores ao previsto nos quatro anos (chega aos 112% no final da legislatura, quando antes era de 117,9%).

Daí que o líder do PS tenha garantido no seu discurso que o programa de governo “é inteiramente compatível com os compromissos internacionais de Portugal em matéria de Defesa e de participação na UE e na zona euro”. Para o socialista, “o que é a base e o guia e dá consistência” à ação governativa “não são os acordos” interpartidários, mas “o programa de governo”.

António Costa declarou que o acordo pós-eleitoral entre os partidos de esquerda “é tão legítimo” como o que PSD e CDS firmaram “na anterior legislatura”. Será que só “alguns [acordos pós-eleitorais] são legítimos e outros não?”, interrogou-se o líder socialista, perante a Comissão Nacional do PS.

“Quero testemunhar que encontrei nos três partidos [BE, PCP e Verdes] um espírito construtivo, leal, sério e responsável, de empenho efetivo no encontro de soluções”, disse António Costa, para quem é legítimo o PCP, o BE e os Verdes – no respeito pela sua identidade própria – participarem em manifestações contra a UE e a NATO e, ao mesmo tempo, apoiarem um programa de governo pró-europeu.

“Ninguém vai pedir ao PCP que faça o que o PP fez em 2002 para se aproximar do PSD” de Durão Barroso, pois “somos gente séria e sabemos que estamos a falar com gente séria, que não vende a sua identidade para um acordo de governo”, referiu António Costa. Após este discurso, o programa foi aprovado por uma larga maioria, com 163 votos a favor, sete contra e duas abstenções. António Costa conseguiu assim minimizar os focos de contestação. Embora tenham existido.

Ao que o DN apurou, à porta fechada, António Costa não falou sobre as divergências com o PCP no acordo político, preferindo dar ênfase ao acordo para o programa de governo.

Álvaro Beleza, ex-dirigente do PS da ala “figurista”, fez um discurso virado para a macroeconomia, considerando o programa “despesista”, defendendo que é difícil manter o orçamento dentro das balizas do défice. Metas essas que se mostram ainda mais ambiciosas do que no programa eleitoral.

O dirigente e deputado João Galamba respondeu a Beleza, assegurando que as metas serão cumpridas.

Também o ex-deputado Ricardo Gonçalves foi crítico, comparando o governo de esquerda a um tuk–tuk. “Cheguei aqui a Lisboa e vi um tuk-tuk, o que me fez logo lembrar esse governo que a direção do PS agora pretende formar com o apoio do PCP e Bloco de Esquerda. Tal como o tuk-tuk, esse governo também faz muito barulho, mete-se por todas as vielas, leva alguma gente a bordo e até é exótico (…) mas é puxado por uma motorizada”, disse o socialista.

Ainda assim, numa reunião que teve cerca de 40 intervenções, Costa conseguiu passar com distinção, não passando a imagem de um partido dividido.

Hoje, António Costa tem o segundo teste noutro órgão do PS: a comissão política. E enfrentará aquele que tem sido um dos seus maiores críticos: Francisco Assis. Mas também para esse encontro Costa já está a cerrar fileiras, chamando pesos-pesados do partido. O histórico Manuel Alegre vai intervir para defender a solução de um governo PS apoiado pela esquerda no Parlamento.

Para já, António Costa está a ganhar o partido. Ontem, na intervenção, Costa lembrou que se opõe ao conceito de “arco da governação” (formado por PS, PSD e CDS) desde a campanha para as primárias do PS, reconheceu ser “verdade que a estratégia proposta é um enorme desafio”.

Costa destacou: “Todos temos consciência de que estamos a falar de algo que significa mudar a correlação do sistema partidário tal como tem existido nos últimos 40 anos.”

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