PS arrasa aposta educativa do anterior governo


Vai acabar o ensino vocacional do 5.º ao 9.º ano. O básico volta a ser “integrado, global e comum a todas as crianças”

As 27 mil crianças que atualmente frequentam o ensino vocacional no básico (do 5.º ao 9.º anos) vão ser as últimas a frequentar esta via de ensino que prepara os alunos para uma profissão. O PS vai acabar com a grande bandeira de Nuno Crato, por considerar que os alunos são desviados muito cedo para um percurso alternativo. De acordo com o programa do governo socialista, os primeiros nove anos de escolaridade devem ser comuns a todas as crianças. Mais uma mudança na área da educação, na qual em poucas semanas de legislatura se acabou com as provas do 4.º ano e se introduziram alterações na prova dos professores contratados.

Ainda sem datas para o fim desta oferta nas escolas, pais e diretores antecipam que os alunos que estão nesta via vão poder terminar o seu plano de estudos (mesmo que implique ficarem até ao final do 3.º ciclo) antes de regressarem ao ensino regular ou profissional. Mas, se no próximo ano letivo já não existir vocacional, um estudante pode também fazer aí o 2.º ciclo (5.º e 6.º anos) e ser depois integrado do 7.º ao 9.º anos no ensino regular. Nestes casos, a maior dificuldade pode estar no facto de ter feito o ciclo anterior em apenas um ano e, logo, com menos horas e matéria dada a disciplinas como Ciências História ou Geografia.

Além disso, lembra Manuel Pereira, diretor do Agrupamento de Escolas de Cinfães e presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), além da matéria mais reduzida, “o problema é que estes alunos já têm naturalmente dificuldades de aprendizagem, motivadas por vários fa-tores. E precisam de respostas adequadas”.

O objetivo de Nuno Crato era, precisamente, integrar nesta via de ensino – que dá noções básicas das disciplinas tradicionais e ensina uma profissão – alunos com pelo menos 13 anos e mais de dois chumbos num ciclo de ensino, substituindo, com uma vertente mais prática, os Cursos de Educação e Formação (CEF). Agora, os respon- sáveis das escolas esperam que os alunos em risco de abandono ou com um historial de insucesso escolar possam contar com outro currículo alternativo.

O DN tentou, sem sucesso, saber junto do novo ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, se estavam previstas alternativas e para quando o fim do vocacional no básico. Certa é apenas a promessa escrita no programa de governo, no qual se lê que o PS “rejeita os instrumentos de dualização precoce aplicados” pelo último governo. Também o anterior ministro, Nuno Crato, não se mostrou disponível para comentar esta decisão

A ideia agrada à Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), que quer um currículo comum para todos os alunos nos primeiros nove anos de escola. “O ensino básico é isso mesmo: fornecer uma educação basilar e que forme os alunos como pessoas e prepare para os conteúdos do ensino secundário, superior ou profissional”, aponta o presidente da Confap, Jorge Ascenção. Acrescentando que a opção atual, que permite aos 13 anos enveredar por uma via profissionalizante, “é muito prematura”.

O que não impede o representante dos pais de reconhecer que vão ser preciso mudanças para que todos concluam o 9.º ano no ensino regular. “É preciso repensar o currículo, adequar o ensino às crianças. Se calhar há demasiada carga horária, demasiada sala de aula centrada no professor. É preciso que as crianças sejam estimuladas para o conhecimento, para um ensino mais ativo.”

Do lado das escolas, a questão não é assim tão simples. “É preciso alternativas. É muito bom dizer que não têm idade para seguirem uma via profissionalizante, mas a verdade é que eles também só entravam aos 15 anos ou então com dois chumbos. São alunos que já demonstram dificuldades”, aponta Manuel Esperança. O diretor do agrupamento de Benfica, em Lisboa, tem dois cursos de vocacional (um do 2.º e outro do 3.º ciclo) e defende que para que todos cheguem aos 18 anos de escolaridade obrigatória têm de se criar vias alternativas. Lembrando os casos de alunos que nas vias regulares apenas perturbam a aprendizagem dos outros.

Ligação às empresas difícil

No entanto, o vocacional também não respondeu a todos os constrangimentos. Manuel Pereira sublinha que o dual – aplicado como experiência-piloto no básico desde 2013-2014 e neste ano letivo alargado a todas as escolas – só funciona em países com um forte tecido empresarial, como a Alemanha (país de origem deste modelo).

O diretor que tem duas turmas de vocacional (nas áreas da agricultura, mesa-bar e hotelaria) confessa que tem dificuldade em manter empresas como parceiras. Já que estes cursos implicam uma formação técnica que deve ser assegurada pelas empresas. Em todos os ciclos, incluindo o secundário, há parcerias com cerca de sete mil empresas.

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