A mentira de Pedro Passos Coelho!

Executivo vai reformar avaliação de professores sem suspender modelo

O Governo de Pedro Passos Coelho não vai suspender o actual modelo de avaliação de desempenho dos professores, como pediam a FNE e a Fenprof, mas vai reformar o modelo “de forma a desburocratizar o processo”.

No programa do Governo PSD/CDS-PP, entregue no Parlamento, é possível ler que, em matéria de estabilidade e dignidade da profissão docente, “para uma melhoria dos processos de ensino e de aprendizagem é necessário valorizar o papel dos professores e dos educadores”.

Tal objectivo será cumprido “reforçando a autoridade do professor”, “valorizando profissionalmente os docentes através de um investimento na formação contínua”, mas também “reformando o modelo de avaliação do desempenho dos docentes de forma a desburocratizar o processo”.

Com a reforma do actual modelo de avaliação, pretende o Governo promover “um regime exigente, rigoroso, autónomo e de responsabilidade, sem que estes princípios conduzam a cargas desmedidas de procedimentos burocráticos e administrativos e ponderando os resultados de outros modelos de avaliação, nomeadamente os já obtidos no modelo de avaliação em vigor no ensino particular e cooperativo”.

Outra das exigências deixadas pelos sindicatos na altura em que foi conhecido o nome de Nuno Crato para a pasta da Educação tinha que ver com a suspensão do processo de fusão de agrupamentos.

Sobre esta matéria, o programa do Governo aponta para uma “estabilização do processo de organização dos agrupamentos de escolas, privilegiando a verticalização pedagógica e organizacional de todos os níveis de ensino, bem como a progressiva autonomia da sua organização e funcionamento”.

Por outro lado, em matéria de racionalização da rede de oferta de ensino, está também prevista a “contratualização com a Associação Nacional dos Municípios Portugueses de um novo modelo de delegação de competências”.

O Governo de Passos Coelho vai apostar numa “gestão descentralizada da rede de estabelecimentos de ensino” e, nessa matéria, “importa assegurar uma maior articulação e cooperação entre a oferta de ensino pública e privada, visando potenciar a sua complementaridade”.

Para atingir esse objectivo, o actual Executivo vai apostar na “defesa da política de contratos de associação com estabelecimentos de ensino particular e cooperativo que prestam serviço público de ensino em regime de contrato com o Estado”.

Aposta também na “concessão de estabilidade jurídica e equidade económica ao modelo de financiamento dos contratos de associação” e no “lançamento de concursos públicos para a contratualização de oferta privada em situações de carência ou ruptura da rede de oferta de ensino”.

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Promessas ao vento?

Ministro da Educação escusa-se a comentar para já avaliação dos professores
O ministro da Educação, Nuno Crato, escusou-se hoje a dar detalhes sobre a questão da avaliação dos docentes, remetendo explicações para o programa do Governo que será hoje entregue no Parlamento.«Nós precisamos de avaliação», sublinhou contudo Nuno Crato, em declarações aos jornalistas no final da tomada de posse dos secretários de Estado, que decorreu hoje no Palácio de Belém.O programa do Governo será entregue hoje à tarde no Parlamento e discutido no plenário da Assembleia da República na tarde de quinta-feira e durante todo o dia de sexta-feira, decidiu a conferência de líderes parlamentares.

Questionado sobre declarações de hoje à TSF do secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, apelando à aprovação do calendário do novo ano lectivo, o titular da pasta da Educação declarou apenas que o mesmo «já foi aprovado».

Hoje tomaram posse no Palácio de Belém 33 secretários de Estado, que se juntaram a dois já empossados na semana passada, juntamente com o primeiro-ministro e os 11 ministros do XIX Governo Constitucional.

Lusa/SOL


Menos Estado para melhor Educação

Nuno Crato, professor catedrático no Instituto Superior de Economia e Gestão, autor do livro «O ‘Eduquês’ em Discurso Directo», considera que há Estado a mais na Educação, em Portugal

Nuno Crato, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão, autor do livro «O ‘Eduquês’ em Discurso Directo», considera que há Estado a mais na Educação, em Portugal, defendendo “uma missão reguladora muito genérica e que sobretudo promovesse a avaliação do que se está a passar”.

ECCLESIA (E) – O que é que está em causa, quando ouvimos hoje falar tanto na necessidade de defender a liberdade de educação?

Nuno Crato (NC) – Há muitas versões da liberdade de educação. Há a liberdade de educação no sentido completamente libertário, e que cada um escolha a maneira de fazer a educação dos seus filhos, há modelos mistos, mas o princípio geral é que é o princípio correcto: o de as famílias não estarem obrigadas a que a educação dos seus filhos seja toda feita sobre um modelo estrito, dirigido centralmente.

Claro que tem que haver uma série de directrizes gerais por parte do Estado, e eu julgo que, em Portugal, as directrizes gerais se transformaram nas directrizes mais específicas que existem. Em Portugal há muito pouca liberdade de educação, porque o Estado, centralmente, e os Governos, dirigem a Educação nos seus ínfimos pormenores, no pormenor da duração das aulas, por exemplo. Eu acho espantoso que esteja regulamentado por Decreto-lei qual é a duração das aulas. Deveria estar regulamentada qualquer uma mais geral, no sentido que as crianças deveriam ter um tanto número de horas de matemática mínimo por semana, um tanto número de horas mínimo de português, esse tipo de coisas regulamentadas, e isso não está regulamentado, essas coisas desse ponto de vista estão regulamentadas no pormenor.

O nosso Estado, em relação à Educação, como em relação com outras áreas, substitui o princípio de avaliar bem e dar liberdade de processos pelo princípio de controlar o processo e avaliar mal. As escolas não são bem avaliadas, os estudantes não são bem avaliados, os resultados são pouco avaliados. E, em contrapartida, o que o Estado e os Governos fazem – todos eles gostam de fazer isso, todos os partidos em Portugal – é controlar ao mais ínfimo pormenor os processos da escola.

E – Há demasiada presença Estatal e política nas escolas?

NC – Há, e criou-se em Portugal um corpo de educadores, uma simbiose entre o Ministério da Educação, os departamentos de Educação, algumas escolas superiores de Educação e departamentos de Educação universitários consultores, criou-se aqui uma simbiose de um corpo de pessoas que vivem controlando a Educação e dando opiniões. Se reparar, no Ministério da Educação, são sempre as mesmas pessoas, que fazem os mesmos programas, que avaliam os programas, que avaliam os resultados, sempre as mesmas pessoas. E isso traduz-se numa vontade de regular, até ao mais ínfimo pormenor, aquilo que se passa nas escolas, e acho que isso é péssimo. Acho que o Ministério da Educação deveria quase que ser implodido, devia desaparecer, devia-se criar uma coisa muito mais simples, que não tivesse a Educação como pertença mas tivesse a Educação como missão, uma missão reguladora muito genérica e que sobretudo promovesse a avaliação do que se está a passar.

E – Isso exigia a tão falada autonomia das escolas. Há muitos professores e sindicatos que também não estão muito adeptos desta questão.

NC – Há uma série de pessoas que não estão adeptas mas a autonomia é uma coisa fundamental. Toda a gente fala de autonomia, toda a gente defende autonomia, mas depois o que se faz é o contrário da autonomia. Como é que se pode promover a autonomia das escolas se nem sequer há a autonomia dos horários? Isto é completamente absurdo. É como se houvesse um ministério central de jornalistas, que dissesse a que horas é que os jornalistas trabalham, a que horas é que fazem entrevistas, e que regulasse tudo sobre os jornalistas. Esse é um problema, dei o exemplo da autonomia nos horários, que é o mais absurdo. Depois há uma série de outras coisas: os professores são colocados centralmente, pelo Ministério da Educação – imagine o que se passava no jornalismo, que houvesse um ministério central do jornalismo que dissesse: este jornalista agora vai para o Diário de Notícias, este vai para a televisão, este vai para a Antena 2. Isto é absurdo, mas é o que se passa no Ensino: há um ministério que controla a colocação dos professores.

E – E os reflexos estão na insatisfação, que é quase geral em qualquer conversa sobre Educação.

NC – Há uma insatisfação porque os resultados da Educação são maus, quando os comparamos com uma série de outros países, com países que têm resultados razoáveis na Educação, nós estamos bastante mal. É também curioso o seguinte: isso só agora é que se sabe, porque durante décadas não se soube, foi escondido, porque este aparatic, grupo, esta click que dirige o que se passa na Educação ocultou. Primeiro, acabaram com os exames nacionais, depois proibiram as comparações internacionais. Só agora, quase já no principio do século XXI, é que as coisas começaram a ser mudadas, começaram-se a fazer exames internos – honra seja feita aos ministros Marçal Grilo e David Justino por isso. Portugal começou a aparecer nas comparações internacionais, começaram-se a conhecer os resultados de Pisa e Timsss – que foi abandonado e não deveria ter sido – e portanto começou-se a perceber o estado mau em que a Educação estava em Portugal, mas isso foi com grandes obstáculos. Eu relembro que houve uma secretária de Estado que proibiu a avaliação internacional, porque os resultados eram maus.

E – Os resultados continuam a ser fracos

NC – Os resultados continuam a ser fracos. Nós não podemos ficar contentes por estarmos iguais ou parecidos com a Espanha, a Itália ou os Estados Unidos, que têm mais resultados. E o caso de Espanha ou de Itália, são casos de países muito semelhantes a nós, neste controlo central de Educação e nesta série de ideias absurdas que começaram a ser difundidas sobre Educação. A mesma vontade, de não fazer avaliação de alunos, a mesma degradação dos programas, a mesma degradação da exigência, são problemas comuns numa série de países europeus, infelizmente. Nós deveríamos olhar para países como a China, o Japão, a Coreia, países que conseguiram grandes progressos na Educação, e com uma filosofia completamente diferente da nossa.

E – Será precisamente a filosofia, o modo de pensar a escola, a questão da autonomia, em que cada escola pode fazer o seu currículo, fazer o seu projecto educativo. Porque é que não se faz?

NC – Não se faz porque se criou quase uma casta de pessoas que controlam a Educação em Portugal, uma casta de pessoas que dirige tudo e acha que consegue e deve dirigir tudo. E esse grupo está no Ministério da Educação, faz parte dos departamentos de Educação de muitas universidades e escolas superiores, fazem os programas e acham que devem controlar tudo. Há outro aspecto triste no meio disto tudo: é que nós se olharmos para as orientações que saem do Ministério da Educação, só vemos absurdos ou vemos muitos absurdos, porque a área das chamadas Ciências da Educação em Portugal está muito desactualizada do que se passa de bom na investigação científica do mundo. É uma área muito ideológica, que nasceu desta ideia do centralismo, de que um Estado central haveria de conseguir controlar bem a Educação, e que o Estado central haveria de dizer a cada filho, a cada família, escola, professor, aquilo que deve fazer, ao mais ínfimo pormenor e duma forma muito marcada, ideologicamente, e pouco aberta àquilo que a Ciência nos diz hoje: aquilo que a Psicologia Cognitiva, os Estudos de Economia de Educação nos dizem sobre o que são as melhores práticas das escolas.

E – Portugal tem uma população também pouco exigente, nesse sentido?

NC – A nossa população também é pouco exigente em relação à escola, infelizmente. Muitas vezes, os pais quando entram na escola não é para protestarem pelos filhos saberem pouco, é a protestarem com as más notas. Há muitos professores que se queixam que, a única vez que viram os pais foi quando deram más notas aos filhos. Isto não é assim com toda a gente, felizmente há país que se interessam muito e que pressionam a escola para darem uma boa educação aos seus filhos, mas muitas vezes não é isso que se passa.

E – Vivemos tão convencidos de uma sociedade do conhecimento, que nos esquecemos que o conhecimento é só o início. Passa-se isso nas nossas escolas?

NC – A nossa escola deveria assegurar a transmissão de conhecimentos e, às vezes, o que se passa é que, com pretextos muito grandiosos, de criar cidadãos críticos, jovens cientistas, escritores activos, eleitores activos, com esses slogans grandiosos, esquece-se aquilo que é fundamental na escola, que é transmitir conhecimentos básicos. Como é que se pode criar um cidadão crítico se o cidadão tem dificuldade em ler o jornal, como se passa com muitos jovens ao saírem do ensino obrigatório? Como é que se pode criar um cidadão activo se ele tem dificuldade em fazer coisas simples? Como é que se pode criar um cidadão consciente, se esse cidadão não sabe nada de História de Portugal? Ou da História do Mundo? Nós deveríamos preocupar-nos que a Escola tivesse mais exigência, transmitisse os conteúdos fundamentais aos jovens.

E – Estão muito baixos, os níveis de exigência?

NC – Estão baixíssimos, são extraordinariamente baixos. Há pouco tempo, na prova intermédia de Físico-química do 11.º ano, lançada pelo Ministério da Educação, uma das questões era simplesmente: transcreve do texto ao lado o comentário sobre o electromagnetismo. Chegámos a este ponto: no 11.º ano, quando os alunos deveriam saber muito bem o que é electricidade, o que é magnetismo, electromagnetismo, transcreve-se de um texto o que é. Ou provas do 6.º ano, em Matemática, em que se pede aos jovens para dividirem 8 por 4. Como é que é possível isto acontecer? Isto é uma acção concertada que, objectivamente, está a desvalorizar a escola. Uma acção concertada da parte duma série de pessoas, ditas teóricas de educação, que justificam que estas coisas se passem, por parte de um grupo de pessoas que controlam o Ministério e os departamentos de educação e que, no fundo, sabem muito pouco sobre educação, estão muito desactualizados e estão muito ideologizados.

E – É uma questão pedagógica ou é uma questão para atingir números?

NC – É tudo, casam-se as duas coisas. As pessoas que defendem conceitos de educação ultrapassados – como seja este conceito de que os conteúdos não interessam, o que interessa é ser cidadão crítico, etc, conceitos ultrapassados pela Ciência e pela Psicologia Cognitiva – casam-se com um Ministério que quer mostrar números bons onde eles não existem. Portanto, se os exames são cada vez mais fáceis, isso convém a um Ministério da Educação que quer mostrar resultados bons no interior e no exterior, e encontra uma boa justificação nos teóricos da educação, que acham que os exames fáceis é que devem ser feitos. Nós estamos numa situação dramática na Educação e temos que ultrapassar isto.

E – O facilitismo resulta de não se saber lidar com o insucesso?

NC – Nós temos de lidar com o insucesso combatendo o insucesso. E nós temos lidado com o insucesso escolar, disfarçando o insucesso, fazendo exames cada vez mais simples, escondendo a realidade da educação. Acho que deveríamos lidar de maneira completamente oposta, que é mostrar o insucesso, mostrar o que é que pode ser feito e ser exigente. O problema da escola não ser exigente é que degrada tudo por aí abaixo. Quando o Ministério da Educação pergunta aos alunos do 6º ano de escolaridade quanto é que é 8 a dividir por quatro, está a dar a mensagem às escolas, aos professores, aos pais e aos alunos de que essa é que é a altura certa para saber quanto é que é 8 a dividir por 4, quando devia ser no 2.º ou no 3.º ano de escolaridade. Essa falta de exigência que existe na Escola é pegada de cima, e isso é que é gravíssimo. É que os Governos e ministros que nos temos tido têm feito este estilo de degradação da escola.

E – A discussão normalmente vem sempre pelos custos…

NC – Eu não acredito em número nenhum que o Ministério da Educação diga. Quando eles dizem que a escola custa tanto por turma, não vale a pena acreditar porque tudo isso precisava de ser transparente, não é transparente. Repare-se que o partido no poder rejeitou uma primeira tentativa desses números serem auditados na Assembleia da República. Depois os números, só sendo transparentes é que se pode saber o que se está a discutir. São números complicados. Qualquer pessoa que saiba um mínimo de Contabilidade percebe que saber quanto é que custa um aluno numa escola é uma conta complicada. Entra ou não entra o custo do edifício? E se o edifício está alugado, entra o aluguer? Entra o custo de manutenção do edifício? Entram as amortizações para o edifício, se ele pertence ao Estado e já está velho? Quer dizer, a contabilidade pública é complicada e esses números que têm aparecido são números muito pouco fiáveis.

E – Acredita que um dia a escola possa ser pública ou privada?

NC – Há pessoas que defendem um chamado cheque de educação, há várias maneiras de o fazer, não sei exactamente qual a melhor maneira. Mas a situação actual, em que o Estado financia as suas escolas, controla-as ao pormenor, depois financia de forma muito arbitrária o ensino privado e também tenta controlá-lo ao pormenor, esta fórmula não pode funcionar. Nós não temos medidas de sucesso, nós vamos para uma escola pública ou privada e não sabemos qual é a melhor, porque o Estado tem recusado a fazer uma avaliação dos alunos, das escolas, fazem umas coisas que são muito casuísticas, mal feitas, apenas para dizer que se fazem.

E – O ranking das escolas, por exemplo.

NC – Aí é um problema diferente. Os dados sobre os resultados das escolas só começaram a ser divulgados pelo Ministério da Educação entre 2002 ou 2004, à volta disso, e houve uma grande batalha para que o Ministério desse à sociedade os dados sobre os resultados das escolas e o Ministério opôs-se. Eu lembro-me de ministros que juravam nos jornais que não iam fazer isso, que não iam dar os dados. Isto é uma coisa absolutamente inacreditável, mas é medida da arrogância de um Estado que controla tudo. Essa informação é fundamental ser dada às pessoas e isso o Ministério tem feito desde que foi obrigado, porque é uma questão legal, o Estado é obrigado a fazer e é bom que o faça.

Depois, com base nessa informação dos resultados das escolas, que é transmitida aos jornalistas, a toda a gente, há jornais que fazem rankings. Isso é com eles, os rankings têm vários critérios, diferentes, mas para conseguir medir as escolas bem precisávamos de ter uma avaliação fiável dos alunos, ao longo dos vários anos de escolaridade, que mostrasse em que medida é que a escola acrescenta valor aos alunos.

O que está em causa é: Qual das escolas é que está a fazer um melhor serviço, no sentido de pegar nos alunos, na etapa em que eles estão, e fazê-los progredir mais. Se calhar, é a escola que aparece pior no ranking.

E – O sistema, tal como existe hoje, a continuar assim, tem tendência a chegar à ruptura?

NC – Em Portugal, as rupturas são difíceis. Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. É sempre possível estar pior. Nós estamos muito piores do que estávamos há 10 ou 20 anos, mas também não tenho dados para mostrar isso, porque o Ministério sistematicamente não dá dados às pessoas, recusa-se a fazer avaliações objectivas dos alunos e das escolas e, portanto, isto é tudo muito difícil de discutir.

Nos Estados Unidos, desde 1929 que há um exame de saída das escolas secundárias para entrar nas universidades que é comparável, feito por uma empresa privada. E em Portugal não, isso não é feito, nós não podemos dizer se os alunos estão melhores ou piores, ou em que áreas é que estão melhores ou piores.

E – Portanto, para si, é ponto assente que é preciso mais avaliação e mais transparência?

NC – Mais transparência e mais liberdade às escolas para se organizarem da maneira que acharem melhor. Criar resultados e não controlar os processos; o que o Ministério da Educação tem feito é exactamente o contrário.

PRE/JCP/OC

Goldman Sachs Toma Oficialmente Posse da Presidência do BCE

Mário Draghi, antigo Presidente da Goldman Sachs Europa, toma hoje posse na presidência do Banco Central Europeu. Draghu presidia ao Banco de investimentos americano no momento em que este, nos anos 2000, ajudou a Grécia a mascarar as contas públicas. O seu papel vai ser o de preservar os interesses dos bancos na atual crise Europeia.
Podíamos até aqui interrogarmo-nos sobre as razões pelas quais o BCE e Jean-Claude Trichet se opunham de modo virulento – mesmo contra a Chancelaria alemã – a toda e qualquer ideia da reestruturação da dívida Grega.
Esta atitude parecia incompreensível, dado que todos os analistas, incluindo os economistas dos bancos, concordavam em considerar que a Grécia não pode cumprir as suas obrigações de dívida na atuais condições contratuais. A inevitabilidade de um reescalonamento, mesmo uma anulação parcial, parece ser consensual. Querer atrasar a reestruturação não fará mais do que agravar o desgaste económico e social provocados pelos planos de austeridade brutais e impopulares impostos sobre os Gregos.
A nomeação de M. Draghi clarifica as coisas. O BCE defende não os interesses dos cidadãos e contribuintes europeus, mas o interesse dos bancos. Um estudo britânico citado ontem no Les Echos tem o mérito de quantificar claramente o processo em curso: este estudo indica que graças ao «pacote de ajuda» da Grécia e ao «mecanismo europeu de estabilidade» posto em prática pelo BCE, FMI e UE, «a fasquia de dívida Grega nas mãos de contribuintes estrangeiros passará de 26% para 64% em 2014. Isto quer dizer que a exposição de cada agregado familiar da zona euro passará de 535 euros hoje para 1450 euros.»
O «salvamento» da Grécia é assim uma gigantesca operação de socialização de prejuízos do sistema bancário. Trata-se de transferir o essencial da dívida Grega – mais também da dívida Irlandesa e Espanhola – das mãos dos banqueiros para as dos contribuintes. Será então possível passar os custos da inevitável reestruturação destas dívidas para os orçamentos públicos Europeus.
Como dizem os Indignados espanhóis, «esta não é uma crise, é uma fraude!» O Parlamento Europeu votou ontem o «pacote de governação económica» que reforma o pacto de estabilidade, reforçando as restrições sobre os orçamentos nacionais e as sanções contra os países em infração. O Conselho europeu reúne-se hoje e amanhã para completar os trabalhos. E não será a próxima nomeação de Christine Lagarde como cabeça do FMI que reduzirá a influência dos bancos sobre as instituições financeiras internacionais – bem pelo contrário.
Felizmente, as resistências sociais e de cidadania cruzam-se por toda a Europa. Governar para os povos ou governar para a finança? A resposta é hoje clara: será preciso que os povos europeus retomem o poder para juntos construirem uma outra Europa. As Attac de toda a Europa organizam de 9 a 13 de Agosto uma Universidade Europeia de movimentos sociais em Frebourg, na Alemanha. Será neste verão um dos locais principais de coordenação das resistências e de construção de das alternativas europeias.
Tradução de Tiago Neves

Passos e Crato: factos e expectativas – Santana Castilho

Sobre o que já foi dito a propósito da parte conhecida do novo Governo pouco se poderá acrescentar. Impera a ortodoxia financeira do Banco Central Europeu, coadjuvada pela tecnocracia operacional do FMI. Três economistas (Victor Gaspar, Álvaro Santos Pereira e Nuno Crato) e um gestor (Paulo Macedo) fazem a quadratura do cerco. Se Paulo Macedo mandar rezar missa no fim, é porque o Bom Escuteiro acertou nas segundas escolhas.
A competência técnica abunda, ainda que deslocada de campo, nalguns casos. Mas um Governo que se limite a uma corporação de técnicos competentes não governa. É governado. Na segunda-feira passada, Assunção Cristas fez curiosas declarações na Assembleia da República. Disse que, quando chegou ao parlamento, sabia menos de áreas onde produziu trabalho do que hoje sabe de agricultura, de que, reconheceu, sabe muito pouco. Não disse o que sabia ou seria capaz de aprender sobre o ambiente. Mas a sinceridade, o voluntarismo e o progresso contextual ficaram documentados. Só tenho pena da Agricultura.
Paulo Macedo fez um trabalho notável como director-geral dos impostos. Na altura, condicionou a aceitação do cargo à percepção de vencimento igual ao que auferia no BCP. Agora, apesar de ter subido, entretanto, na hierarquia do banco, aceitou o miserável vencimento de ministro. Causa perplexidade a mudança. E causa ainda mais ver tal pasta entregue a quem, do ramo, só tem no currículo ter sido administrador da Médis. Para a saúde dos portugueses, é muito pouco. Para a saúde dalguns, que vivem da doença dos outros, pode ser salutar.
Bem consciente do ónus de me declarar tão cedo contra a corrente, não comungo da euforia generalizada, que abriu braços à Educação. Explico o que posso explicar. Em Abril, Passos Coelho tinha um programa eleitoral para a Educação. Em Maio tornou público outro, que não só nada tinha a ver com o primeiro, como era a sua antítese. Escassos dias volvidos sobre a divulgação do último, Passos Coelho comprometeu-se publicamente a melhorá-lo. Mas faltou à palavra que empenhou e apresentou-se ao eleitorado com um programa escrito em eduquês corrente, com medidas até a 19 anos de prazo, pasme-se, e que, entre outros disparates, consagrava: a recuperação de duas carreiras no seio da classe docente; o enterro definitivo da eleição dos directores; a diminuição do peso dos professores nos conselhos gerais; o aumento da promiscuidade entre a política partidária e a gestão pedagógica do ensino; a protecção da tirania e do caciquismo; a adulteração do sentido mais nobre do estatuto da carreira docente; a consolidação dos mega-agrupamentos; a manutenção da actividade nefasta das direcções regionais; uma significativa omissão sobre concursos de professores e muitos outros aspectos incontornáveis da política educativa; a recuperação da ideia bolorenta de uma agência externa de avaliação educacional e a subserviência à corporação do ensino privado, por forma que a Constituição proíbe. Os professores, agora em êxtase, esqueceram-se disto? Eu sei que o programa de Governo ainda não é conhecido. Mas só pode resultar do que contém isto e do do CDS. E o do CDS não se opõe a isto.
Nuno Crato é um notável divulgador de ciência e um prestigiado professor de Matemática e Estatística. Em minha opinião, o merecido prestígio intelectual que a sociedade lhe outorga foi trazido a crédito incondicional como político da Educação. No mínimo, o juízo é precipitado. Permito-me sugerir que leiam a sua produção escrita sobre a matéria. Que ouçam, com atenção, e sublinho atenção, a comunicação apresentada em 2009 ao “Fórum Portugal de Verdade” e as intervenções no “Plano Inclinado”. Os diagnósticos não me afastam. Os remédios arrepiam-me. Nuno Crato é um econometrista confesso, que repetidas e documentadas vezes confunde avaliação com classificação. Nuno Crato pensa que se mede a Educação como se pesam as batatas e que muda o sistema de ensino medindo e examinando. E não mudará. Ou muda ele ou não muda nada. Fico surpreendido como os professores deixam passar com bonomia a hipótese, admitida, de contratar uma empresa privada para fazer os exames ou a intenção, declarada, de classificar os professores em função dos resultados. Estes dislates patenteiam pouco conhecimento sobre as limitações técnicas dos processos que advoga e uma visão pobremente parcial sobre o que é o ensino. Nuno Crato, que muitas vezes tem sido menos cauteloso ao apontar o indicador às ciências da Educação, tem agora o polegar da mesma mão virado para ele. Espero que não se entregue às ciências ocultas da Economia para redimir a Escola pública.
A sustentabilidade do estado social vai pôr em causa os serviços públicos de Saúde e de Educação. No início da sua actividade, como líder do PSD, Passos Coelho trouxe esta questão à discussão política. Como é habitual, evocou a demografia: o Estado social, como o conhecemos, não suportaria a gratuidade desses serviços, numa pirâmide etária com tendência para se inverter. A necessidade de evitar a bancarrota determinou, depois, uma espécie de estado de inevitabilidade e de necessidade nacional que impede, pela urgência e pelo acenar insistente da tragédia grega, que discutamos outras vertentes possíveis de análise. Em todo o caso, teimo em duas perguntas: por que razão a acuidade do problema é menor em países com maior capacidade redistributiva da riqueza produzida? Por que razão uma economia incivilizada passa pela crise sem que a possamos pôr em causa?

* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

eureka! afinal quem mal-redigiu o programa eleitoral do PSD para a educação não foi o Canavarro, foi o Crato!

as prioridades de Nuno Crato

Rodin: as 3 sombras

(Educare. pt 2006-10-23) – excerto

EDUCARE.PT : Na sua opinião, quais são actualmente as questões mais preocupantes na Educação em Portugal?
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NUNO CRATO: É difícil traçar um quadro sistemático dos problemas da Educação [mau sinal!!] , mas posso adiantar alguns que me parecem muito importantes.
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Em primeiro lugar, o abandono escolar, que atinge uma fracção muito elevada dos jovens e leva muitos futuros adultos a enfrentar a vida sem o mínimo de qualificações necessárias. É um grande problema económico e social que se está a criar. [*]
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Em segundo lugar, a larguíssima percentagem de estudantes que, apesar de se manterem no sistema de ensino e nele progredirem, pouco aprendem e arrastam deficiências básicas a Português, Matemática, História e outras disciplinas cruciais.
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Em terceiro lugar, a formação, selecção e promoção de professores, que não é feita de forma a privilegiar o conhecimento das matérias, a capacidade pedagógica e o mérito. [*]
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Em quarto lugar, o centralismo ministerial que retira às escolas a possibilidade de contratarem os melhores professores, arranjarem soluções adequadas às suas especificidades, etc. [*]- mas onde é que eu já li isto? – eureka! afinal quem mal-redigiu o programa eleitoral do PSD para a educação não foi o Canavarro, foi o Crato! (- ‘evidências’: aqui ) – ou será que o Zé Manel foi fazendo uns ‘copy-paste’ daqui (NC-95%] e dali (SC-5%) ?! E o papel de PPC neste cozinhado?!! ]
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Em quinto lugar, a indisciplina. [em 5.º lugar??!!!!!!!! Mas ó NC, o que é que o senhor conhece das escolas do ensino básico e secundário????!!!! – é que, sabe, a indisciplina + o absoluto desinteresse dos ‘indisciplinados’ são determinant-íssimos das suas primeiras duas preocupações!! **]
(..)

retirado daqui

Retirado de “O vento que passa

Portugal, século XXI: há escravos levados das Beiras para Espanha

A quinta de Iscar, Valladolid

As pessoas arregimentadas em Portugal para trabalharem na agricultura espanhola chegavam de carro. Tó Zé, de 35 anos, entregava-os ao cuidado dos pais, Francisco José Maria, de 68, e Maria Clotilde Fortunato, de 69. Eram estes quem lhes mostravam a futura residência em Iscar, Valladolid.

“Ali chegados, aos trabalhadores eram-lhes retirados todos os documentos de identificação, pelos arguidos, e instalados num armazém, que servia de galinheiro, onde havia galinhas e pombos, sem quaisquer condições de higiene e salubridade”, diz o texto da sentença.

A descrição do local e do que espera as pessoas para ali levadas piora nas linhas seguintes: “Dormiam em velhos colchões retirados do lixo, no chão, sendo presos pelos pulsos, por uma corrente de ferro e cadeado, todos aqueles que os arguidos António, Francisco e Maria suspeitassem que pretendiam fugir, sendo ainda o armazém fechado pelos mesmos arguidos, para que nenhum daqueles trabalhadores pudesse sair”.

Reflexões sobre a derrota do Bloco de Esquerda

por Miguel Madeira

Tem surgido várias explicações sobre a derrota do BE – muito radical?, muito moderado?, as duas coisas ao mesmo tempo?, pouco aberto aos movimentos sociais?, etc.  Algo paradoxalmente, acho que todas essas explicações estão certas, e vou tentar explicar porquê.


Mas antes disso vou fazer dois apontamentos sobre os resultados do Bloco que têm passado despercebidos:

Em primeiro lugar, desde a fundação que o Bloco é considerado a “esquerda caviar”, o partido “dos meninos de boas famílias que vão fazer manifestações”, e continuam a ver-se traços disso em artigos como este da Helena Matos ou este do Pedro Tadeu (que o Luis Rainha refere aqui). Mas já alguém se deu ao trabalho de ver onde o BE teve as suas maiores votações? Marinha Grande (9,77%), Portimão (9,63%), Lagos (9,47%), Vila Real de Santo António (9,44%), Lagoa (9,27%), Olhão (9,03%)… Os as freguesias com mais votos – 14,74% em Rabo de Peixe / Ribeira Grande, 13,48% no Parchal / Lagoa (uma antiga aldeia de pescadores e operários conserveiros; actualmente consiste sobretudo numa urbanização construída por um cooperativa de habitação económica, funcionando como um “dormitório”)… Apesar da tradição piscatória de várias, não são propriamente terras de “caviar” (poderá-se contra-argumentar que Portimão, Lagos e Lagoa até podem ser consideradas terras relativamente prósperas, mas a análise da votação por freguesias indica que os resultados mais altos do BE foram nas freguesias mais “proletárias”).

Outro aspecto é a grande variação de resultados do BE de sitio para sitio, mesmo em localidades próximas e socialmente parecidas – qual é a grande diferença entre Baleizão (11,86%) e o resto do concelho de Beja (5,72%)? Ou mesmo entre a Mexilhoeira Grande / Portimão (10,09%) e Odiáxere / Lagos (7,22%), duas freguesias contiguas e muito parecidas? Uma possivel teoria poderia ser a existência ou não de militantes activos nas localidades com mais votos (algumas pessoas iriam votar não apenas por causa dos “políticos” que aparecem na televisão, mas também por causa do militante de base que eles conhecem pessoalmente) – é uma ideia tentadora, mas impossível de testar na prática (mesmo que se concluísse que o BE tinha mais votos nas freguesias em que tem grupos de militantes, penso que seria impossível determinar o sentido da relação causa-efeito).

Mas, agora, vamos à minha teoria sobre as causas da derrota.

Imagino 3 (ou melhor, 3 e meia) estratégias possíveis para um partido à esquerda do PS:

1 – o “verdadeiro PS”: defender aquilo que nas décadas anteriores era defendido pelos partidos da Internacional Socialista no mundo ocidental, e que está actualmente a ser desmantelado, tanto pelos “socialistas” como pela direita – altos impostos sobre os ricos, subsídios aos pobres, serviços públicos gratuitos (SNS, escola pública, etc) e eventualmente uma ou duas nacionalizações. Na minha opinião, tem sido largamente esta a linha do BE

1a – uma variante desta opção é a defesa da “social-democracia mundial” (ou pelo menos europeia) contra o “Estado Social num só país”: defender que numa economia integrada os mecanismo de regulamentação económica e de protecção social também têm que ser integrados, até para evitar a “corrida para o fundo“. Muitas posições do BE (como a defesa da “europeização” de parte da dívida dos PIGS ou da harmonização fiscal na UE) podem enquadrar-se aqui

2 – “estatismo clássico”: defender uma estatização substancial da economia. Poderá haver quem ache que o programa de 2009 do BE aproximou-se disso (embora as nacionalização lá propostas não fossem mais radicais do que partidos de centro-esquerda, como os Trabalhistas ingleses ou os Socialistas franceses, fizerem em tempos)

3 – ser o partido do “poder popular” – erguer bandeiras como a democracia participativa/directa (p.ex., o orçamento participativo), a participação dos trabalhadores na gestão da produção, a defesa de formas de economia comunitária não-capitalista e não-estatista, etc. Realmente, antes de 1989, os partidos de “extrema-esquerda” que se vieram a integrar no BE tinham, em certo grau, uma tradição de defesa do “poder popular de base” e de que esse seria o “verdadeiro socialismo”, por contraponto ao socialismo burocrático da URSS e do PCP. No entanto tal posição tem estado largamente ausente da linha actual do BE

O problema da “linha 1” é que a margem para a diferenciação face ao PS acaba por ser muito estreita, correndo-se facilmente o risco de cair numa de duas situações – ou o partido aparecer como um apêndice do PS (o “caso Alegre”?), ou então, pelo contrário, em qualquer questão fazer ponto de honra em marcar a diferença face ao PS, dando a muita gente a impressão de ser um partido do “contra pelo contra” (a linha seguida após as presidenciais?). Por isso é que digo que tanto os que dizem que o BE foi muito colado ao PS como os que dizem que foi muito sectário acabam por ter razão – na minha opinião, a estratégia social-democrata e excessivamente parlamentar não é a melhor; mas, a partir do momento em que se adopta essa estratégia, a táctica mais lógica e coerente seria mesmo a da “amizade colorida” com o PS, aliando-se numa votações, divergindo noutras, mas sem o hostilizar por principio. De certa forma, parece-me que a estratégia recente do BE foi uma combinação de oportunismo estratégico e de sectarismo táctico (ou talvez isso seja o resultado de compromissos a nível da direcção, em que a busca de um equilíbrio entre várias propostas estratégicas lógicas e coerentes acaba por conduzir a uma linha errática e incoerente).

A linha 1a, se calhar até é tecnicamente correcta (pelo menos de acordo com grande parte da teoria económica convencional), mas tem o problema que não é uma proposta politica para Portugal, mas sim para a Europa (mais sobre isso mais à frente).

As linhas 2 e 3 têm o problema de qualquer proposta de romper com (em vez de fazer uns ajustes ao) sistema: a maior parte das pessoas reagem com “isso é impossível” (para a linha 3), “viu-se o que isso deu” (para a 2) e afins.

Deixando de lado a linha 2 (até porque esse nicho já está largamente ocupado), parece-me que o melhor caminho para defender a linha 3 (a tal do “poder popular”, mas podem dar-lhe outro nome se não gostarem deste…) é o da “aprendizagem pela acção” – se grupos de cidadãos se mobilizarem e organizarem por uma causa especifica (e sobretudo se conseguirem ganhar a sua luta…), vão pouco a pouco adquirindo o hábito de tentarem influenciar directamente as decisões políticas, em vez de se limitarem a votar de “x” em “x” anos (x<=4).

Assim, um partido que tivesse o “poder popular” como “programa máximo” deveria seguir como estratégia principal apoiar o desenvolvimento de movimentos sociais (novos e velhos) “de base” (reconheço que há um perigo nesta estratégia – a fronteira entre “apoiar o desenvolvimento” e “telecomandar” pode ser bastante porosa).

Pelo contrário, a actividade do Bloco de Esquerda nos últimos anos tem tido o Parlamento como eixo central, e mesmo o seu funcionamento interno tem privilegiado o aspecto “partido de deputados e de eleitores” em detrimento do de “partido de militantes/aderentes/activistas”. Aliás, as várias alterações organizacionais que o BE tem tido (formais e informais) tem sido no sentido de, dentro do partido, reforçar a “democracia burguesa” face à “democracia participativa” (veja-se a substituição da direcção colegial por um coordenador, o fim da rotatividade dos deputados, o reforço da Mesa Nacional face às Assembleias Distritais – plenárias – na elaboração das listas de candidatos, etc.).

Já agora, num momento de descredibilização cada vez maior da democracia representativa, é ao mesmo tempo triste e irónico ver tanto o PCP como o BE transformados nos seus maiores apologistas – nos períodos eleitorais, o mais normal é ouvir tanto comunistas como bloquistas dizendo algo como “as pessoas estão convencidas que são todos iguais; temos que as fazer compreender que não são todos iguais”; por outras palavras, “o sistema é bom, o problema são as pessoas que vocês elegem; deveriam eleger outras”, uma posição que provavelmente muitos pensadores presentes nas bibliotecas das sedes dos dois partidos chamariam de “idealista”. A verdade é que, se os políticos parecem ser “todos iguais”, isso provavelmente significa que há algo no sistema que os faz ser “todos iguais” quando chegam ao poder, e portanto o que é preciso é mudar o sistema (por outras palavras, a melhor resposta à questão “será que se o Louçã fosse para lá faria melhor?” seria “o que é preciso é acabar com o «lá», com esse «lá» em que uns decidem a nossa vida, e criar uma nova sociedade em que as decisões sejam tomadas «cá», pelos que são afectados por elas”).

Umas notas finais:

  • É possivel que a “aberração” tenham sido os resultados de 2009 – nas eleições para o PE (ideais para mandar “cartões” ao governo) o Bloco teve uma elevada votação (dos quais arrisco-me a dizer que muitos terão sido “votos de protesto”), e tal deu “embalo” para as legislativas, poucos meses depois.
  • Há muita gente que vota BE (e CDU) não porque os queiram no governo, mas simplesmente como uma forma de dizer ao PS “queremos que governem à esquerda”; como é evidente, este mecanismo só funciona quando essas pessoas acham que o PS vai ganhar – se acham que o PSD vai ganhar, preferirão reforçar o PS. Atenção que isto não é o famoso “voto útil” – o “voto útil” é alguém que se identifica ideologicamente com o BE ou com o PCP votar PS para travar a direita; o que estou a falar é de alguém que se identifica ideologicamente com o PS votar no BE ou na CDU para mandar um sinal à direcção do PS.

Stiglitz: a austeridade condena a Europa e os EUA à estagnação

O Nobel da Economia Joseph Stiglitz considera que os EUA e a Europa estão a tomar más decisões para tentar superar a crise e assegura que as políticas de austeridade não são a solução.

Segundo noticia a Europapress.es, esta sexta-feira, durante a sua intervenção na reunião anual do Círculo de Economia em Sitges, Stiglitz alertou que “a estratégia de austeridade é uma estratégia que vai condenar os EUA e a Europa à estagnação, ao baixo crescimento e, por sua vez, o défice não poderá melhorar muito”.

O economista admitiu que é compreensível a adopção de medidas de austeridade, devido ao tamanho dos défices públicos, mas argumentou que a austeridade dos governos não tem ajudado, levando a uma grande baixa no consumo interno, enfraquecendo o investimento e as exportações.

Stiglitz critica acção dos bancos centrais

Stiglitz teceu duras críticas aos bancos centrais, dizendo que “não são a fonte da sabedoria” e têm antes “fortes prioridades políticas”. Uma situação mais presente na Europa do que nos EUA, sustentou.

Neste sentido, o economista criticou o resgate da Grécia: “Não se trata de um resgate, mas de uma protecção dos bancos europeus que têm emprestado muito, tornando-se credores desses países, e agora vêem-se ameaçados com uma possível reestruturação.”

“A sequência dos resgates, o que faz é agravar o problema”, advertiu, argumentando que desta forma transfere-se a dívida do sector privado para o Governo, que em caso de reestruturação deve responder.

Stiglitz afirmou que os EUA, por exemplo, deveriam levar a cabo reformas para reestruturar os impostos e os programas de despesas, o que poderia levar a um maior crescimento, uma maior procura associada a um défice menor.

Já no caso da União Europeia, Stiglitz apontou que a solução seria criar um fundo de solidariedade, mas sublinhou que a melhor opção é uma reestruturação bancária.

Feios, PIGS e infecciosos- Manuel António Pina

Feios, PIGS e infecciosos

Afinal a bactéria que tem andado a infectar e matar alemães e viajantes chegados do Norte da Alemanha é, revelou a Organização Mundial de Saúde, uma nova estirpe da familiar “escherichia coli”. Os pepinos espanhóis (desta vez a coisa demorou menos tempo a apurar do que sucedeu no caso do incêndio do Reichstag) foram só o bode expiatório das autoridades alemãs.

Um bode expiatório, como os comunistas em 1933, perfeitamente credível para o alemão comum, já que a Espanha é, com Portugal, Irlanda e Grécia, um dos tenebrosos PIGS, os países feios, porcos, maus, preguiçosos e gastadores da periferia do “lebenraum” comunitário da senhora Merkel cujos problemas a impecavelmente asseada Banca alemã “ajuda” a resolver a generosos juros usurários enquanto se ajuda não menos generosamente a si mesma.

Países que não sabem governar-se e que, por isso, tem que ser a sempre esforçada Alemanha, por interposta UE, a governá-los e, como na Grécia, a cobrar-lhes os impostos e encarregar-se da privatização das suas empresas e serviços públicos (e a altura chegará em que os próprios governos dos países “ajudados” terão que ter o “agreement” do chanceler de serviço em Berlim).

A declaração de inocência dos pepinos PIGS faz supor que – disse-o à BBC Reinhard Burger, presidente do Instituto Koch – possa nunca vir a ser descoberta a origem do surto infeccioso. Principalmente se a origem for, digo eu, a carne alemã.

Os tristes dias destes dias – Baptista Bastos

“Que é o futuro?”, eis uma das perguntas. E a resposta surgiu como se fora o verso de um poema: “O futuro é uma coisa cá dentro que nos dá coragem.” Poucas vezes assisti a um acerto tão justo e, ainda por cima, em forma de metáfora. “É uma coisa cá dentro.” Não sabemos muito bem o que essa coisa é. Mas lá que ela existe, existe mesmo. Podemos também chamar-lhe coragem, energia, esperança e até fé. Quer dizer que não devemos desistir, que não devemos deixar cair os braços, que temos de encontrar alento onde o alento parece desaparecido.

Vejamos: que nos espera, a partir de domingo? Não sendo arauto de desgraças nem propagandista de receios maiores do que aqueles no interior dos quais vamos andando, tudo indica que a vida vai piorar para os portugueses. Não para todos: para a esmagadora maioria.

Seja quem for que ganhe as eleições, nem um nem outro dos presumíveis vencedores melhorará a triste e melancólica existência portuguesa. Além do que as guerras partidárias reiniciar-se-ão no minuto seguinte. É estranho verificar que tanto Sócrates como Passos Coelho não é bafejado pelo amor do próximo. Seja: pela estima dos seus “camaradas” e “companheiros.”

Passos, esse, então, reúne um montão de inimizades que o desfile de “apoiantes” de última hora corresponde a uma farsa pegada. Desde a inimitável Manuela Ferreira Leite, que proferiu uma declaração cheia de sicuta, além de adicionar aquela extraordinária frase de que nem na oposição queria Sócrates – até Santana, mais o sempre inteligente dr. Sarmento e o prof. Marcelo, a parada foi um monumento de hipocrisia.

Na hipótese de Passos Coelho vencer as eleições, a vida ser-lhe-á dura. Nem um, um sequer, daqueles que foram ao beija-mão, o estima, o admira, o estremece. Além do que o projecto de que conhecemos alguns extractos são de molde a deixar-nos seriamente assustados. Passos Coelho conseguiu o aparentemente impossível: levar o PSD mais para a direita. Mas também Sócrates fez o mesmo com o PS. As diferenças são, apenas de forma, e a forma é tosca.

As ideias do presidente do PSD são confusas e, por vezes, abstrusas, porém baseiam-se, firmemente, no breviário mais atroz do neoliberalismo. A tese “menos Estado, melhor Estado” é a bandeira de Passos, e tem sido condenada por todos os que pensam a sério. Arrastou o conceito de Europa unida para um lamaçal cujas consequências são imprevisíveis, mas sempre trágicas. Não é, apenas, a crise “sistémica” do capitalismo que originou a crise. É a arrogância de um programa de direita que não quer “aliviar o desfavorecimento e reduzir os extremos de riqueza e indigência” [Tony Judt].

José Sócrates diz que tentou forjar uma nova linguagem de justiça e de acção pública. Reconheçamos que obteve, inicialmente, alguns resultados amolgando alguns interesses corporativos. Mas Sócrates é amigo e defensor do “mercado”; nunca ambicionou modificar o “sistema” através de decisões progressistas e socializantes. Não esqueçamos de que foi aplaudido e incensado pelas faixas mais redutoras e reaccionárias da sociedade portuguesa. Desprovido do mais leve resquício de “socialismo”, suprimiu do discurso oficial do PS a palavra “trabalhadores”, “classe operária” e “luta de classes” no que foi severamente criticado, mas mais tarde, muito mais tarde, por Mário Soares. Este, agora, vendo o barco a afundar-se, veio em socorro de Sócrates, aparecendo num comício, um tanto surpreendentemente, tendo em conta os ásperos comentários que lhe tem dedicado, sobretudo nos artigos semanais que assina no “Diário de Notícias.”

O velho estadista sabe muito bem que, nestas eleições, os vencedores e os vencidos aproximam-se. E que as raivas, apesar de tudo, e os ressentimentos dissimulados, os pequemos ódios e a sede de vingança irão emergir. Se Passos Coelho se move em terreno armadilhado, José Sócrates irá tombar nas ciladas há muito montadas. Um e outro não criaram afectos, dentro e fora dos respectivos partidos. Um e outro pertencem a uma geração para a qual as convicções são o meio disfarçado de atingirem respectivos fins.

O mundo sem ideias acelerou. O mundo dos negócios, das trapaças, do espertismo pacóvio é um mundo triunfante. Temos de esperar mais duas ou três gerações para que outros momentos históricos surjam e se imponham. Até lá, temos de sobreviver com os Sócrates e com os Passos. O que, decididamente, não é razão para alegria.

Louçã: novos deputados do BE serão tirado ao CDS

No último dia de campanha, Louçã fez uma arruada pela Rua de Santa Catarina, no Porto, onde apelou sobretudo ao voto dos jovens e dos que nunca votaram.

“Se o Bloco de Esquerda eleger mais um deputado nos distritos de Porto, Braga e Aveiro, é o CDS que perde e a direita populista que fica para trás”, afirmou o coordenador do BE, no final de uma arruada pela Rua de Santa Catarina, no Porto.

A poucas horas do fim da campanha, que encerrará com um comício no Coliseu do Porto, Francisco Louçã fez um apelo ao voto, sobretudo de jovens e dos “nunca votaram”.

Dirigindo-se aos indecisos, o coordenador do BE afirmou: “Na próxima segunda-feira não querem ouvir cantar de galo aqueles que querem mais desemprego e mais precariedade”.

“Se os jovens tiverem trabalho, os mais velhos terão respeito”, disse Francisco Louçã.

Durante a descida da principal rua comercial do Porto, Louçã autografou um álbum em que é uma das personalidades destacadas e comprou um CD com músicas dos alunos da tuna da Faculdade de Medicina, que tocavam no local.

Já após as declarações aos jornalistas, quando se encontrava na via, Louçã foi abordado por alguns populares, sobretudo idosos, que o foram cumprimentar.

O último dia de campanha do líder bloquista começou com uma viagem de metro. Louçã viajou entre a Casa da Música e Matosinhos, onde participou (na junta de freguesia da Senhora da Hora) num debate com trabalhadores de empresas de transportes.

Durante a visita, Louçã comentou, de modo crítico, a presença de Belmiro de Azevedo numa acção do PSD, na quinta-feira. “Registei que houve uma intervenção direta de um dos homens mais poderosos da economia portuguesa junto de Pedro Passos Coelho: Belmiro de Azevedo que o foi apoiar. Talvez seja um sinal de como o interesse económico e a ideia de um Estado a favorecer os contratos e as facilidades para os grupos que têm dirigido o país, como é que esse interesse se conjuga neste último dia de campanha”.

Se Louçã criticou o 2º homem mais rico do país, na véspera fora a vez da candidata do Bloco em Aveiro Ana Pereira se ter referido ao mais rico de todos. Sem mencionar o nome de Américo Amorim, a candidata mencionou o facto de viver no concelho de Santa Maria da Feira, onde o BE fez um comício, “o homem mais rico de Portugal”.

De seguida, elencou muitas das disparidades existentes no distrito.

Portugal está de mão estendida para a UE

Portugal tem um “relacionamento de mão estendida” com a União Europeia (UE), quando o que precisa é de “investimentos reprodutivos”, critica o economista Jorge Landeiro de Vaz.

Portugal tem um “relacionamento de mão estendida” com a União Europeia (UE), quando o que precisa é de “investimentos reprodutivos”, critica o economista Jorge Landeiro de Vaz.

Este professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) afirma, em declarações à Agência Lusa, que “o relacionamento de Portugal com a UE é de mão estendida”, quando eram necessários “investimentos reprodutivos”.

Como exemplifica: “Nós importamos centeio da Alemanha. Inacreditável! Fechamos as fábricas de açúcar de beterraba de sacarina e somos subsidiados pela UE para fechar essas fábricas”.

 

Landeiro de Vaz acentua que, apesar de este ser “um modelo sem futuro”, não há “ninguém a falar sequer das alterações do modelo ou do relacionamento de Portugal com a UE”.

Referindo-se ao resgate da ‘troica’ (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), alerta ainda que “é obvio que – num programa de médio prazo como este que apenas prevê baixar rendimentos e preços – daqui a muitos poucos anos” Portugal vai estar “novamente a bater à porta [da Europa]“.

Landeiro de Vaz acredita mesmo que, “daqui a um ano”, Portugal vai “estar na situação da Grécia e isto conduz a uma reestruturação da dívida, a um rescalonamento e a uma situação de eventual saída do próprio euro”. Para o economista, “não há nenhuma inevitabilidade no caminho das coisas”. Mas mostra-se “pessimista” por não detectar
mudanças neste sentido no discurso político.

O economista lança hoje, no ISEG, o livro ‘A Insustentável Leveza do Euro’, uma compilação de artigos de opinião que escreveu entre 30 de Outubro de 1998 e 7 de Abril de 2011, dia em que Portugal formalizou o pedido de resgate da dívida à Europa.
http://economico.sapo.pt/noticias/portugal-esta-de-mao-estendida-para-a-ue_119590.html

‘Está-se a tirar mais a quem já não tem’

Desemprego, precariedade, falta de reconhecimento de carreiras, salários baixos, má gestão. A lista de queixas foi longa, no encontro de hoje na junta de freguesia de Matosinhos entre uma delegação do Bloco de Esquerda e trabalhadores da empresa Metro do Porto, a que se juntaram representantes sindicais de grandes empresas da região, casos da Unicer, da Efacec ou da Sonae. Críticas com um ponto em comum, resumível nas palavras de Fernando Teixeira: «Está-se a tirar mais a quem já não tem, valha-me Deus».

«A lei penal não responsabiliza as habilidades que são feitas nas empresas» e quem acaba por pagar a factura é o trabalhador, argumentou, avançando um retrato das dificuldades na primeira pessoa: «Ganho 529 euros e tenho o salário congelado. Tenho o meu filho a estudar em Aveiro e a fazer part-time, porque o dinheiro não chega para lhe pagar os estudos».

Os reparos não foram só para as empresas. «Sinto-me lesado, roubado pelo próprio Estado», afirmou outro dos presentes – «Até os ridículos onze euros que o Estado me dava de abono para o meu filho me retiraram». «Onde é que está o dinheiro do BPN? Porque é que não se responsabilizam esses ladrões?», questionou um dos sindicalistas. Não foi o único remoque ao sector bancário: «Como é que nesta negociata da troika com o governo 12 mil milhões vão para a banca?».

Na resposta Francisco Louçã, que esteve acompanhado pelo cabeça-de-lista pelo Porto, João Semedo, e pela eurodeputada Marisa Matias, citou Ricardo Araújo Pereira: «Eu não me importo de dar uma mão à banca, se a banca retirar as mãos dos meus bolsos».

Já João Semedo considerou que «o principal défice democrático na sociedade portuguesa é nas empresas. A vida nas empresas é uma caricatura de democracia».

A fechar, Louçã apontou promessas eleitorais dos socialistas em contramão com o que foi a acção do governo: «Devia-se dar os Óscares para o descaramento na política. Era uma cerimónia bonita».

Já no final, em declarações aos jornalistas, o dirigente bloquista foi parco nos comentários à entrevista de Joana Amaral Dias ao jornal I, afirmando que Louçã é um «líder à rasca» – «Não faço nenhuma interpretação. No último dia da campanha costumam acontecer coisas curiosas»

Luís Fazenda acusa Sócrates de ter assinado o fim da justa causa

Dirigente do Bloco diz que a facilitação dos despedimentos está escrita com todas as letras no memorando do FMI e acusa o primeiro-ministro de fazer campanha hipócrita – diz uma coisa e faz outra.
Dirigente do Bloco diz que a facilitação dos despedimentos está escrita com todas as letras no memorando do FMI e acusa o primeiro-ministro de fazer campanha hipócrita – diz uma coisa e faz outra.

Luís Fazenda considerou o voto no PS duplamente inútil. Foto de Paulete Matos

Num comício na maior sala de espectáculos de Santa Maria da Feira, o dirigente do Bloco de Esquerda Luís Fazenda acusou o primeiro-ministro demissionário de fazer uma campanha hipócrita, por afirmar defender a justa causa como condição necessária para o despedimento, ao mesmo tempo que assinava o memorando do FMI que diz com todas as letras que é preciso acabar com esse princípio. “José Sócrates e os líderes da direita não se limitaram a capitular perante as instâncias internacionais. Foram mais longe e abandonaram a Lei Fundamental do país. O que assinaram é inconstitucional.”

Luís Fazenda considerou o voto no PS duplamente inútil. “O que dizer de um partido que não serve para governar – a possibilidade de isso acontecer é cada vez mais remota – e ao mesmo tempo nem vai poder fazer oposição, porque assinou o acordo da troika, que será sempre o programa do governo”, disse o dirigente bloquista, lembrando que o PS vai ter de votar o mesmo orçamento que a direita. “Em que lugar ficam então os socialistas que defendem o serviço nacional de saúde, o Estado Social?”, insistiu.

Cinco razões para votar no Bloco

O discurso principal coube a Francisco Louçã, que fez um apelo ao voto, enumerando cinco razões para votar no Bloco de Esquerda. A primeira, é porque é um voto de afirmação de uma vontade. Louçã aproveitou para recordar que a abstenção não é nem nunca será saída. “Se fosse, então o país já estava salvo”, lembrando que Sócrates foi eleito com menos de 1/3 dos eleitores.

A segunda razão é que Sócrates não merece o voto do povo de esquerda. “Ele teve todas as oportunidades para dizer o que ia fazer da Segurança Social. No documento da troika comprometeu-se com uma grande redução da taxa social única”, que é dinheiro produzido pelo trabalhador que é retido para financiar a Segurança Social. Não disse quanto vai reduzir a TSU, nem quando. Vai chegar às eleições sem dizê-lo. “Será que não tem de dizer o que vai fazer pelo menos aos seus eleitores?” Para Louçã, não se pode votar em quem não tem a confiança dos eleitores.

A terceira razão é que o Bloco não se rende diante dos que falam na inevitabilidade. Dizem que não há alternativa. Mas sempre há alternativas, assegurou Louçã, citando o exemplo da Bemicar, fábrica que exporta quase toda a sua produção de calçado ortopédico sem qualquer apoio do estado e pagando salários muito acima da média da indústria de calçado. “Os que dizem que não há alternativa são os que querem levar o país à bancarrota”, disse o coordenador do Bloco de Esquerda.

A quarta razão é que ninguém pode aceitar o “mal pior”, que os políticos manhosos chamam de mal menor.

A quinta razão é que é preciso um novo 25 de Abril para defender a democracia, posta em causa por propostas como a de haver um ministro das Finanças europeu, não-eleito por ninguém, que praticaria o que Louçã chamou de colonialismo.

Antes já falara Pedro Filipe Soares, primeiro deputado do Bloco eleito pelo distrito de Aveiro, que citou a actividade do Bloco em apoio às lutas dos trabalhadores do distrito, e pediu a eleição de um segundo deputado bloquista em Aveiro, que seria Odete Costa.

Falaram também a própria Odete Costa e o mandatário da candidatura, Celso Cruzeiro.